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    Willem Dafoe e Robert Pattinson em cena de O Farol, filme de Robert Eggers
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    A consciência como O FAROL do homem mítico e solitário | Roteiro ao Avesso

    Ronald AquinoBy Ronald Aquino04/02/2026Nenhum comentário8 Mins Read
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    Capítulos

    • INTRODUÇÃO
    • NO INSÓLITO MAR DA SOLIDÃO
    • DOIS FEIXES DE UM MESMO RAIO DE LUZ
    • O CASTIGO DE SER CONSCIENTE

    INTRODUÇÃO

    Cinema é experiência! Para além do entretenimento, assistir a um filme é se permitir ser confrontado por uma realidade única e produzir uma resposta a partir disso, através de uma reflexão, uma ideia ou até um novo comportamento. Cinema é linguagem, comunicação, crítica e expressão. E é por isso que o filme nunca se basta nele mesmo!

    O objetivo principal do “Roteiro ao Avesso“, afinal, sempre foi esse: andar na contramão e oferecer um pensamento que excede o técnico; apreciando e respirando o todo que o cinema proporciona. E é com muito carinho e alegria que esta coluna retorna!


    Depois de fazer um alvoroço com “A Bruxa” (2015), Robert Eggers volta num acordo com a controversa produtora A24 no comando de mais um filme repleto de alegorias e profundidade. De uma forma mais sutil, o diretor americano consegue perturbar seu espectador, transformando “O Farol” (2019) em um pesadelo niilista, mitológico e, ao mesmo tempo, magnífico. 

    Recomendo, veementemente, assistir ao filme antes de continuar lendo este artigo, para que a experiência imersiva e única do projeto não seja afetada.  Agora, se você já assistiu e, assim como eu, já está se questionando há dias sobre as metáforas pintadas por Eggers, suba à bordo e vamos desvendar os significados mais profundos desta preciosidade caótica da cinematografia.

    Cena de O Farol, de Robert Eggers
    Foto: Reprodução.

    NO INSÓLITO MAR DA SOLIDÃO

    É inegável o viés mitológico de “O Farol”. A fotografia sem vida, a ambientação mórbida e o alegorismo tomam conta da ilha e, aos poucos, também dos solitários faroleiros. Em contrapartida, não se pode ofuscar a humanidade que lá permeia, principalmente (e quase que exclusivamente) no personagem de Robert Pattinson, Ephraim, um jovem de poucas esperanças, e recém-chegado companheiro do veterano Thomas (vivido por Willem Dafoe).

    O que perturba, tendo em vista todo esse cenário, é a gradativa perda da consciência, fruto da solidão enlouquecedora da ilha. Nada é mais humano do que a sua capacidade de ser racional. Porém, “O Farol” flerta com as consequências do isolamento, da falta de interação e do que o homem é capaz de fazer para conseguir voltar à sanidade.

    Dentro dessas interpretações, destacam-se dois pensamentos do filósofo grego Aristóteles: a capacidade social do ser humano e a a dualidade bestial/divinal na falta dessa interação.

    É evidente que o homem, muito mais que a abelha ou outro animal gregário é um animal social.

    Se tem algo que a pandemia nos elucidou foi tal linha de pensamento. Cresceu o número de pessoas que desenvolveram depressão e ansiedade no período da quarentena, consequência, direta ou indireta (afinal, esses quadros são bem mais complexos do que uma única explicação), da falta de interação. E é quando Robert Eggers surge para pintar seu retrato monocromático. “O Farol” é uma espiral de sensações pautadas na insanidade de dois homens afundando no mar da solitude, esta que, aos poucos, vai perdendo seu caráter construtivo e se tornando o alicerce da própria degradação destes.

    As visões de Ephraim com a sereia, por mais míticas que sejam, refletem, também, a vontade de satisfazer seus desejos humanos, aqui representados pela pulsão sexual, mas que vai o aproximando, cada vez mais, do que Aristóteles diz sobre a animalização, quando o homem se vê só. Inóspito de si mesmo.

    Cena de O Farol, filme de Robert Eggers
    Foto: Reprodução.

    DOIS FEIXES DE UM MESMO RAIO DE LUZ

    A segunda linha de pensamento em Aristóteles, afirma do caráter do homem quando este se encontra nulo de relações sociais.

    O homem solitário é uma besta ou um deus.

    Interessante notar como não é uma frase de dúvida, mas sim, de afirmação. Num extremo da solidão humana, temos a bestialidade, fato comprovado com a paciente perda da sanidade dos protagonistas enquanto se veem encarregados do cuidado do farol da ilha. Uma das cenas mais memoráveis, é quando o faroleiro de Robert Pattinson faz do veterano o seu “cachorro”, em seu sentimento momentâneo de superioridade, numa tentativa desequilibrada de revidar os maus tratos sofridos pelo abuso de “poder” que o velho faroleiro exercia sobre ele.

    Em outro extremo, percebe-se a potencialidade divina do homem, e é aqui que “O Farol” muda para sua vertente alegórica, passando de algo puramente natural (tá… talvez nem tanto assim) para uma abordagem que vai além da compreensão consciente.

    Pode-se, assim, facilmente encarar Thomas e Ephraim como dois lados complementares e necessários um para o outro. Ao passo que se diferem em determinadas características, por causa disto complementam-se, por mais que Thomas ainda exerça um papel superior ao do jovem, enfatizado não só por sua experiência como faroleiro, mas seu teor mítico.

    Robert Pattinson em cena de O Farol, filme de Robert Eggers
    Foto: Reprodução.

    Finalmente podemos ver, então, a face de Thomas como uma personificação de Proteu, uma deidade marinha da mitologia grega, esta, diga-se de passagem, que rege grande parte do pensamento de Eggers para seu projeto. Assim como Proteu tinha por função guardar o rebanho de seu pai, Poseidon, Thomas se vê como o sumo encarregado de cuidar da ilha. Um exemplo simples de tal contraste homem-deus, é quando o veterano faroleiro alerta o jovem sobre maltratar as aves da ilha, como sinal de afronta e chamado para maldições. Por um lado, brilha o feixe da superstição; por outro, o da mitologia.

    Já o personagem de Pattinson, reencarna a figura de Prometeu, deus do fogo e o que, segundo o mito, foi responsável por entregar o fogo do Olimpo aos mortais, símbolo este da supremacia, do conhecimento. E a partir daqui, tendo em vista a caracterização de cada personagem em tela, Robert Eggers não hesita em dar também ao farol enquanto edifícil sua própria alegoria: a consciência.

    Com tais referências em mente, tudo se torna complementar e indispensável entre os elementos da ilha mítica rodeada pelo mar da falta de razão. E é com maestria que, a partir da metade do segundo ato, “O Farol” se mostra profundamente bizarro e, ao mesmo tempo, lúcido.

    O CASTIGO DE SER CONSCIENTE

    Percebendo que sua fonte de sanidade está se esgotando, Ephraim questiona-se por todo tempo, o que de tão majestoso pode habitar no topo do farol. Willem Dafoe é estupendo quando encarna um homem-deus enfurecido só em pensar na inclinação do jovem à imprópria curiosidade. O protetor guarda, a todo custo, o tesouro; e o propagador tenta, a todo custo, descobrir e alcançar a verdade.

    O grande questionamento é: a humanidade está preparada para encarar a verdade? É neste ponto que a ideia criacionista faz contato com o enredo metafórico de “O Farol”.

    Oh, não! – tornou a serpente – vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.

    Gênesis III, 4-5

    Segundo o Cristianismo, após comerem do fruto proibido, Adão e Eva foram expulsos do paraíso. O grande primeiro pecado que condenou a humanidade pelo restante de seus dias foi o do orgulho, a ânsia pelo conhecimento de tudo, o que só Deus deveria o ter.

    Para os gregos, isso não é tão diferente. Quando Zeus soube que Prometeu roubara o fogo do Olimpo (conhecimento) para dar aos humanos, enfureceu-se e o acorrentou no alto de uma colina para que tivesse seu fígado bicado por abutres por toda a eternidade. Assim também se encerra o arco do jovem Ephraim, largado aos pelicanos à beira do mar da ilha do farol.

    Quando, finalmente, consegue contemplar a “luz” do farol, extasiado, não consegue se conter, e aniquila-se, pela própria consciência. Seu desequilíbrio, consequência de uma avassaladora e inquietante solidão, não o faz capaz de lidar com tamanho conhecimento. O saber torna-se, ao mesmo tempo, motivo de glória e ruína humana.

    Se no Cristianismo, os homens carregam a culpa original, o desejo de serem como Deus, detentores de toda a verdade e conhecimento, degradando uns aos outros, década após década, século após século, em nome de sua doutrina própria e inegável; Zeus dá aos mortais Pandora, símbolo eterno da autodestruição pela curiosidade e castigo, ao não saberem lidar com o tesouro da mente consciente.

    Robert Pattinson e Willem Dafoe em cena de O Farol, de Robert Eggers
    Foto: Reprodução.

    De que vale o saber senão for regado pela prudência? De que vale uma verdade que só serve a interesses? De que vale deter tanto conhecimento sobre si e sobre o mundo se nada é feito para promover mudança, progresso?

    Estamos num mundo de informação e de produção constante de conhecimento, em que todos, a todo tempo, denominam-se um novo “Prometeu” trazendo à luz uma nova verdade. Porém, é valioso ater-se a valores construtivos e buscar ações saudáveis, evitando a recusa de nós mesmos pela ascensão da soberba.

    Assim, não acabamos como nossos próprios abutres, no insólito penhasco da douta ignorância.


    “O Farol” está disponível no catálogo da Amazon Prime Video


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    Ronald Aquino
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    Estudante de Psicologia e amante de filmes auto-intitulados complicados ou com dano emocional. Recorrentemente, vê profundidade em tudo e acha que sabe o que o diretor quis dizer baseado no roteiro e na mise-en-scène. @ronaldaquinob

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