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    Cena de A Odisseia, filme de Christopher Nolan
    Filmes

    O ser-no-mundo como A ODISSEIA do homem | Roteiro ao Avesso

    Ronald AquinoBy Ronald Aquino03/08/2026Updated:03/08/2026Nenhum comentário10 Mins Read
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    “Entre as criaturas, que vivem da terra e no solo rastejam,
    nada se pode encontrar de mais mísero que os próprios homens,
    pois ninguém julga possível, jamais, que lhe venha a desgraça,
    enquanto os deuses favores concedem e as pernas lhes movem.”

    “A Odisseia”, Homero — Canto XVIII, v. 130

    Capítulos

    • UM “SER-NO-MUNDO” MITOLÓGICO
    • UM “SER-COM-OS-OUTROS” MULTIFACETADO
    • O “SER-PARA-A-MORTE” INEVITÁVEL

    Após o sucesso explosivo de “Oppenheimer” em 2023, que ganhou o Oscar de Melhor Filme na cerimônia da premiação no ano seguinte, Christopher Nolan pensa grande novamente e retorna aos cinemas com seu novo filme, “A Odisseia” (The Odyssey), baseado no poema épico atemporal de Homero. Como de praxe, o diretor britânico se utiliza de uma narrativa grandiosa para evidenciar a pequenez da humanidade frente a alguns dilemas, sendo esse o motivo pelo qual foi o filme escolhido como objeto de análise e reflexão de mais um Roteiro ao Avesso.

    Na história, acompanhamos a jornada de Odisseu (Matt Damon) que, após a Guerra de Tróia, liderada pelo rei Agamemnon (Ben Safdie), enfrenta o desafio de retornar para casa, a ilha de Ítaca. Sua ausência em virtude da guerra faz com que sua esposa, Penélope (Anne Hathaway), precise lidar com diversos pretendentes que almejam ocupar o trono vazio, um deles o ganancioso e ardiloso Antinous (Robert Pattinson). Após ferir o ciclope Polifemo, Odisseu e seus soldados enfrentam a ira de Poseidon, e encontram diversos obstáculos e criaturas mitológicas na jornada para casa, tornando 10 anos de desafios e uma eternidade existencial.

    Lembro que o texto possui spoilers e pode comprometer a experiência única que é assistir “A Odisseia” no cinema. O filme continua em cartaz por todo o país, e a crítica completa você confere aqui.

    Espadas empunhadas? Avante!

    Cena de A Odisseia, filme de Christopher Nolan
    Foto: Reprodução.

    UM “SER-NO-MUNDO” MITOLÓGICO

    Quando o filósofo alemão Martin Heidegger propõe a ideia do Dasein (“ser-aí”), ele rompe com o pensamento dualista advindo de Descartes que separava a razão da matéria (mente-corpo). Essa virada filosófica coloca a existência do homem arraigada na sua relação com o mundo. O mesmo vale para o mundo, que não aparece como mero objeto, mas existe porque o homem também o altera, numa relação direta, ou na relação com os outros.

    A partir disso, podemos entender o que há de tão importante numa mitologia. Para além do que já comentei sobre no texto de “O Farol” (que você pode ler aqui), compreende-se o mito como uma reflexão da realidade; uma tentativa de atribuir sentido e/ou signifcado a algo que, inicialmente, carece de explicação. É a partir da experiência no mundo, e com o mundo, que se constroem tais narrativas; assim como é na relação com o outro que essas narrativas se espalham e perpassam séculos de história.

    “A Odisseia” de Homero é um marco da literatura ocidental. O poema definiu a forma como histórias de heróis são concebidas e, principalmente, o efeito psicológico e existencial das adversidades que se tem de enfrentar durante a jornada, inspirando tantos outros clássicos, como “A Divina Comédia“, de Dante Alighieri, e “Os Lusíadas“, de Luiz de Camões. Banhando-se na mitologia grega, o poema traz reflexões atemporais sobre coragem, inteligência, astúcia e, principalmente, transformação.

    Precisamos pensar no mito não somente como uma definição categórica de como as coisas funcionam no mundo. Muitas vezes (arrisco dizer que talvez em grande parte delas) o mito, particularmente o grego, se interessa em passar uma mensagem, ensinar algo através do símbolo, moldando a moral e o caráter. Foi o que Homero fez, ao não tornar sua obra em um simples recorte de historietas e acontecimentos isolados. É o que Christopher Nolan faz, ao atualizar o sentido máximo de uma jornada em seu projeto.

    Cena de A Odisseia, filme de Christopher Nolan
    Foto: Reprodução.

    A discussão maior sobre “A Odisseia” não é o quão fiel uma adaptação deve ser a um original para a considerarmos válida; é o quanto estamos dispostos a degladiarmos por uma suposta “verdade criativa“, sem ao menos reconhecer o significado que ela carrega, e a possibilidade dela mudar junto com a nossa própria mudança. Nenhuma história — inclusive a nossa própria — está no mundo para ser absoluta. E, querendo ou não, ela nunca será.

    Não estamos falando simplesmente de um Odisseu tentando voltar pra casa após vencer uma guerra, tendo de enfrentar diversas criaturas pelo caminho; estamos pensando em um ser humano que, em sua insignificância e limitação dentro de um mundo vasto, precisa encarar as consequências de suas decisões, enquanto busca retornar para uma existência que, talvez, não caiba mais no quem se é agora, pois a jornada o fez diferente.

    A história começa fragmentada, não-linear (o Nolan gosta bastante), refletindo a ideia da lembrança. Odisseu está na ilha de Calipso (interpretada por Charlize Theron), sem nenhuma noção de tempo e com a memória em retalhos, por efeito da ingestão prolongada de flores-de-lótus. De um lado, um filho que anseia pelo pai; uma esposa que se nega a acreditar que o esposo pode não voltar, fazendo e desfazendo promessas para ganhar tempo; uma luta visceral para que um homem não caia no esquecimento.

    De outro, o desejo de permanecer. Não porque não há escolha, mas porque é mais fácil. Por mais que Calipso aprecie a companhia de Odisseu, ela o incentiva a se lembrar do que aconteceu, de quem ele é. Ou melhor, de quem ele era.

    Charlize Theron em cena de A Odisseia, filme de Christopher Nolan
    Foto: Reprodução.

    UM “SER-COM-OS-OUTROS” MULTIFACETADO

    Não há como estar no mundo sem estar com os outros. “A Odisseia” faz-nos pensar, em vários momentos, sobre o custo dessa relação. Interessante perceber como que, para esse objetivo, o filme humaniza as personagens. O próprio filme começa com “num tempo de aparente magia…“. O fantástico é uma ferramenta para falar das nossas contradições, numa existência social e multifacetada.

    Como vimos no capítulo anterior, os contos míticos são, em si, muito humanos, pois nascem desse lugar e refletem essas experiências. Não à toa, as histórias dos deuses e dos titãs é repleta de intrigas e mal-entendidos, tal qual uma grande família num jantar de ano novo.

    Eles se alfinetam, desafiam-se, brigam, ficam uns contra os outros, traem… tal qual como nós. A Athena de Zendaya é a manifestação do remorso, na mesma medida em que se apresenta com compaixão. Ela, assim como Zeus e Poseidon (que são apenas mencionados, apesar de sentirmos suas influências diretas), podem ser entendidos muito mais como personificação das consequências da ação humana, do que propriamente seres transcendentes jogando batalha naval com os mortais, intocáveis, no topo de um morro.

    Exploremos essas tais “consequências”… O início dos desafios de Odisseu e sua tripulação começa após ferirem o ciclope Polifemo, filho do deus dos mares, a quem a criatura roga vingança (na verdade, começa bem antes, com a própria invasão de Troia, mas vamos falar disso mais adiante). Da inteligência do personagem de Damon surge a arrogância e o orgulho, que levam a um vai-e-volta de décadas pelo oceano.

    O episódio na ilha de Circe (interpretada de forma magistral por Samantha Morton) é inteiramente espetacular! Quando o herói questiona a feiticeira sobre ter transformado os soldados em porcos, ela ferozmente o rebate com uma verdade desoladora.

    Samantha Morton em cena de A Odisseia, filme de Christopher Nolan
    Foto: Reprodução.

    “Eu não transformei os seus homens em nada! Olhe para eles; isso é o que eles são!”

    A ferocidade animal e irracional que faz com que Circe responda “eles teriam” quando Odisseu a pergunta se seus homens lhe tinham feito algum mal é justificada quando vemos o histórico de invasões, saques, morte e destruição que deixaram. Seja na guerra travada ou nas paradas a cada ilha. Mais ao final, quando Penélope ouve do próprio marido (ainda sem saber) que eles são o “povo do mar“, isso fica ainda mais evidente.

    Às vezes, nós nos tornamos quem menos esperamos, ou queremos; mesmo não desejando.

    Odisseu enfrenta esse dilema, face a face, quando vai ao Hades e confronta as sombras de quem lutou ao seu lado. “E que conforto isso me traz? Não soube que você estava naquele maldito cavalo até os mortos me dizerem”, diz Sinon (Elliot Page) do mundo dos mortos, logo após o personagem de Damon exaltar a vitória da guerra por seu sacrifício inicial.

    Sacrifícios não tornam importantes os homens; não fazem um melhor do que outro; não qualificam. De pouco adiantou a Agamemnon dar como oferenda aos deuses sua própria filha com Clitemnestra (personagem da implacável Lupita Nyong’o), a fim de conseguir vantagens de navegação, para acabar assassinado no seio de casa.

    Sacrifícios nos fazem tomar decisões; decidir diz respeito a escolher; e são as escolhas que realmente mudam os rumos da jornada. O destino previsto pelo cego profeta Tirésias (James Remar) não é inevitável; não é uma condenação: — assim como muitas profecias em outros contos gregos — ele descortina o que é possível. O homem não perde a liberdade de escolha; ele só não controla o efeito de suas consequências.

    “Por que valorizar mais essas vidas do que aquelas já perdidas?“, pergunta Tirésias. “Eu ainda posso salvá-los dos deuses“, diz Odisseu.

    “Mas não deles mesmos“.

    Elliot Page em cena de A Odisseia, filme de Christopher Nolan
    Foto: Reprodução.

    O “SER-PARA-A-MORTE” INEVITÁVEL

    A nossa existência, inevitavelmente, aponta para um fim. O que fazemos até lá? Quais as escolhas que tomamos? Qual futuro construímos (ou não)?

    Interessante notar como Christopher Nolan tem utilizado suas histórias para refletir sobre o quão destrutivo o ser humano pode ser, principalmente em seus dois últimos projetos. Tanto em “Oppenheimer” quanto em “A Odisseia“, a destruição começa com a ideia de um homem, para mudar os rumos de uma guerra; e um único objeto, antes tido como símbolo da inteligência, torna-se a culpa esculpida.

    “Nós violamos o que é mais sagrado entre os homens e transformamos numa luta; numa caçada.”

    O preço da destruição é o remorso. Odisseu passa tanto tempo tentando ser tático e controlador que é obrigado pelo mundo, aos poucos, a abrir mão do que acha que é. Tanto que só retorna para casa quando se deixa levar pelo ritmo e as ondas dos mares; quando renuncia ao próprio orgulho. Volta como mendigo, não para não ser descoberto logo de início, mas para se encontrar na ausência de rótulos. É reconhecido, não pela sua vitória, mas pela sua cicatriz.

    “E se o Odisseu que você conhece perdeu seu caminho? E se, numa noite, em uma cidade estrangeira, ele viu coisas que o fez pensar que o lar que ele conhecia podia não existir mais?” diz a Penélope.

    Costumamos travar guerras inconclusivas entre nós mesmos, presentearmo-nos com segundas intenções e planejar nosso sucesso às custas dos outros… sem perceber que essa é a odisseia repleta de atribulações que só nos levará para mais longe do que, um dia, chamamos de casa; sem pensar que essa é uma existência fria, comparada ao que o universo apresenta como possibilidade; sem notar que podemos estar vagando à procura de um alguém que sequer existe, por razões que sequer compreendemos.

    A jornada faz o herói. O herói escreve seu destino. O destino inspira o viver. E, vivendo, aprendemos que pouco compensa tentar sermos quem éramos, quando podemos nos orgulhar de quem nos tornamos.

    Matt Damon e Zendaya em cena de A Odisseia, filme de Christopher Nolan
    Foto: Reprodução.

    • Veja também: Roteiro ao Avesso – A Substância

    A Odisseia Anne Hathaway Christopher Nolan Filmes Roteiro ao Avesso Tom Holland Zendaya
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    Ronald Aquino
    • Instagram

    Estudante de Psicologia e amante de filmes auto-intitulados complicados ou com dano emocional. Recorrentemente, vê profundidade em tudo e acha que sabe o que o diretor quis dizer baseado no roteiro e na mise-en-scène. @ronaldaquinob

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