Levitucus é considerado um dos melhores filmes de terror do ano, mas seu texto vai além dos sustos para demonstrar um verdadeiro medo.
Levítico 18:22: “Não deite com um homem como se deita com uma mulher; é uma abominação.”
Levítico 20:13: “Se um homem se deitar com outro homem, ambos fizeram o que é detestável; devem ser mortos.”
Os versículos acima, retirados do Antigo Testamento da Bíblia cristã, são utilizados constantemente em “combate” a comunidade LGBTQIAPN+. Esse discurso vem sempre pautado em frases de efeito, afirmações violentas e numa tentativa de proteção à “família tradicional”, pois “tais práticas” são contrárias aquilo que “Deus quer para os seus filhos”! E isso é dito de púlpitos, estádios, grandes aglomerações e serve de palanque político para figuras improfícuas espalhadas pelo Brasil inteiro, e no mundo.
Desta forma, a sétima arte vai se espelhando na realidade para contar suas histórias, e um gênero que consegue mesclar o que é sobrenatural com os discursos emitidos no cotidiano é o terror. “Corra!”, “As Boas Maneiras”, “Medusa”, “Nós”, “A Hora do Pesadelo 2”, são obras que unem o horror da fantasia com as facetas do ser humano que nos assombram, chocam e nos fazem questionar se aquilo é possível.
Logo, Levitucus, que é considerado um dos melhores filmes de terror do ano, eleva seu texto para superar sustos, demonstrando que o verdadeiro medo de uma comunidade é ser excluído por completo. Tanto do que se deseja, quanto de quem se é de verdade! Forjado a partir de uma entidade que abomina o que é contrário ao que certa vez “Deus disse”, a produção demonstra alegoricamente as dores de uma falsa cura, a violência de quem pensa deter a verdade absoluta e os medos daqueles que somente querem continuar vivendo.
Assim, o tal fogo que santifica os protagonistas é o mesmo que amaldiçoa, assim como os filhos de Arão durante seu sacrifício que foram consumidos por não seguirem as regras determinadas, mas que fogo é esse então? Já que o próprio Cristo deixou claro que ” …Misericórdia quero, e não sacrifício…”; porém boa parcela dos que demonstram sua fé preferem se ater as passagens iniciais, pois é mais fácil combater e gerar medo; é mais fácil atacar do que abraçar; é mais fácil evocar o próprio mal do que amar o próximo.
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Em Leviticus, Naim e Ryan são dois adolescentes que vivem o desabrochar do primeiro amor e a descoberta do desejo mútuo como jovens LGBTQIAPN+. No entanto, quando a comunidade religiosa ultraconservadora da qual fazem parte descobre o romance, o afeto dos rapazes é tratado como um mal a ser extirpado. Submetidos a um violento ritual de “libertação” para purificar suas almas, a repressão extrema acaba invocando uma força sombria: uma entidade sobrenatural ancestral passa a persegui-los implacavelmente, assumindo a forma daquela que é a maior “tentação” e o maior desejo de ambos — a figura um do outro.

O medo do isolamento, as terapias de fé e a monstruosidade do falso amor
O grande acerto do filme está em transformar o terror psicológico e o body horror em veículos de denúncia social.
O roteiro desenha a solidão e o isolamento forçado como as formas mais cruéis de tortura. Ao invocar uma maldição em que a entidade ganha o rosto da pessoa amada, a narrativa estabelece uma metáfora visceral: o ato de se apaixonar passa a ser a própria sentença de morte. Esse suplício contínuo dialoga diretamente com a realidade das espúrias e abusivas “terapias de conversão”: práticas violentas, psicologicamente destrutivas e proibidas pelos conselhos de medicina e psicologia no Brasil e no mundo.
Ao tratar o afeto natural entre dois jovens como uma anomalia a ser “curada” à força, a comunidade do filme reflete a cegueira de discursos ideológicos que ignoram o consenso científico internacional.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e os principais órgãos médicos já afirmaram, há décadas, que a homossexualidade é uma manifestação totalmente natural e saudável da sexualidade humana.
Tratar a orientação afetiva como um mal demoníaco ou uma enfermidade é uma distorção perversa que apenas produz trauma, sofrimento e morte. A obra expõe como o verdadeiro horror não reside na anatomia do monstro que persegue os rapazes, mas na mente daqueles que acreditam que quebrar o espírito e o corpo de um jovem é um ato de amor divino.
Deste modo, o horror de Leviticus atinge seu ápice de crueldade ao transformar a própria intimidade em um gatilho para a violência extrema. A direção constrói sequências de perseguição sufocantes, onde o menor vislumbre de afeto — um toque de mãos, uma aproximação física ou um olhar mais íntimo entre os rapazes — atua como a ignição para a manifestação da entidade.
O terror corporal se manifesta com uma crueza quase cirúrgica, simulando uma condenação divina imediata a cada gesto de carinho. O aspecto mais perturbador dessa dinâmica, no entanto, não é a ferocidade do monstro, mas a cumplicidade daqueles que deveriam proteger os protagonistas. Em um retrato doloroso do extremismo familiar, os pais e a comunidade assistem ao flagelo dos jovens com um olhar de aprovação messiânica: cientes das consequências devastadoras e irreversíveis do ritual, eles aceitam a destruição física e psicológica dos próprios filhos sob a justificativa perversa de que ver a vida daqueles jovens destruída pela dor é um preço pequeno a se pagar se isso impedir que continuem “vivendo em pecado”.
É desse alinhamento sádico entre o sobrenatural e o fundamentalismo que nasce a fala devastadora de Ryan, sintetizando que a maior vitória daquele grupo de falsa fé foi incutir no peito dos dois jovens a semente da própria destruição: “Era isso que eles queriam, que tivéssemos medo uns dos outros”.
Assim, o tal fogo que os radicais alegam que santifica os protagonistas é o mesmo que os amaldiçoa.
A produção evoca uma simbologia poderosa que remete aos filhos de Arão na tradição bíblica — consumidos por um fogo profano ao não seguirem os ritos determinados. Contudo, cabe o questionamento: que fogo é esse que essa parcela de crentes insiste em acender? O próprio Cristo deixou claro em suas passagens: “Misericórdia quero, e não sacrifício”. Ele resumiu toda a lei no ato de amar ao próximo como a si mesmo, sem exceções ou parênteses discriminatórios.
Ainda assim, boa parte daqueles que ostentam uma falsa fé prefere se apegar a versículos isolados do Antigo Testamento para justificar o próprio preconceito. É uma profunda hipocrisia: usam o nome de Deus para perseguir, espancar e marginalizar pessoas LGBTQIAPN+, esquecendo-se completamente da mensagem central de acolhimento e amor ensinada pelo Evangelho. Afinal, para a estrutura do fundamentalismo, é muito mais fácil combater o diferente e semear o pavor; é mais simples atacar do que estender a mão; é mais atraente evocar o próprio mal por meio da intolerância do que praticar o amor genuíno.
O longa então se consolida, portanto, como um divisor de águas no cinema de gênero contemporâneo. Ao aliar atuações viscerais, uma atmosfera sufocante e um subtexto social afiado, a obra confronta os perseguidores e dá voz às vítimas. O filme deixa uma lição indigesta e necessária para a sociedade: o demônio que nos assombra raramente vem do inferno; muitas vezes, ele veste terno, carrega um “livro sagrado” debaixo do braço e se alimenta da destruição do amor alheio.

E vale a pena assistir?
Logo, Levitucus, que é considerado um dos melhores filmes de terror do ano, eleva seu texto para superar sustos, demonstrando que o verdadeiro medo de uma comunidade é ser excluído por completo. Tanto do que se deseja, quanto de quem se é de verdade! Forjado a partir de uma entidade que abomina o que é contrário ao que certa vez “Deus disse”, a produção demonstra alegoricamente as dores de uma falsa cura, a violência de quem pensa deter a verdade absoluta e os medos daqueles que somente querem continuar vivendo.
Assim, o tal fogo que santifica os protagonistas é o mesmo que amaldiçoa, assim como os filhos de Arão durante seu sacrifício que foram consumidos por não seguirem as regras determinadas, mas que fogo é esse então? Já que o próprio Cristo deixou claro que ” …Misericórdia quero, e não sacrifício…”, porém boa parcela dos que demonstram sua fé preferem se ater as passagens iniciais, pois é mais fácil combater e gerar medo; é mais fácil atacar do que abraçar; é mais fácil evocar o próprio mal do que amar o próximo.
Por fim, Leviticus assusta não apenas pelo deslumbre de suas metáforas visuais, mas pela dolorosa constatação de que a tela de cinema funciona como um espelho límpido da sociedade: o horror que nos faz tapar os olhos no escuro da sala é exatamente o mesmo que, do lado de fora, ganha as ruas, consome vidas reais e se disfarça de fé para tentar destruir o amor.
Leviticus ainda não tem data de estreia no Brasil, mas está disponível on-line em diferentes sites.
- Veja também: Crítica de Obsessão
Leviticus assusta não apenas pelo deslumbre de suas metáforas visuais, mas pela dolorosa constatação de que a tela de cinema funciona como um espelho límpido da sociedade: o horror que nos faz tapar os olhos no escuro da sala é exatamente o mesmo que, do lado de fora, ganha as ruas, consome vidas reais e se disfarça de fé para tentar destruir o amor.
