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    Poc Con: O lar que o nosso “eu” do passado precisava

    Will WeberBy Will Weber15/06/2026Nenhum comentário7 Mins Read
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    Poc Con: O lar que o nosso “eu” do passado precisava está no especial do mês da visibilidade LGBT+.

    Se você acompanha o reality show RuPaul’s Drag Race, sabe que existe um momento específico, quase sempre na reta final de cada temporada, que é um verdadeiro teste para os canais lacrimais do espectador. É quando Mama Ru levanta a foto de infância das competidoras e faz a clássica pergunta: “O que você diria para a sua versão criança se a visse hoje?”. Naquele instante, as armaduras de maquiagem e perucas caem, dando lugar a relatos dolorosos sobre o medo do futuro, a solidão de não se encaixar e a eterna busca por um lugar no mundo. Para a maioria dos jovens LGBT+, crescer apaixonado por super-heróis, games e quadrinhos significava viver em uma espécie de exílio duplo: não se ver representado nas histórias que amava e não se sentir seguro nos espaços que celebravam essas histórias.

    Mas e se pudéssemos voltar no tempo, olhar nos olhos daquela nossa versão pequena e dar um spoiler do futuro? O recado seria, acima de tudo, de calma e acolhimento. Diríamos para aquela criança respirar fundo, porque o amanhã guardava um lugar muito especial onde a paixão nerd e a nossa identidade andariam de mãos dadas. Um espaço repleto de artistas que se parecem com ela, de histórias com as quais é possível se identificar de verdade e de vivências que fortalecem a comunidade. No Brasil, esse lugar ganhou nome, forma e orgulho: ele se chama Poc Con.

    A Criação de uma Resistência Geek

    Para entender a magnitude da Poc Con hoje, precisamos voltar a 2019, quando os quadrinistas e idealizadores Mário César e Rafael Bastos decidiram transformar uma incerteza de mercado em um manifesto de celebração. O cenário dos grandes eventos geeks no Brasil — embora gigante — muitas vezes empurrava artistas e narrativas dissidentes para as margens físicas e financeiras dos pavilhões. Era preciso criar uma alternativa que não apenas abrisse espaço para a diversidade, mas que colocasse os criadores LGBTQIA+ no centro do palco.

    Nascida em São Paulo como uma feira independente, a Poc Con (cujo nome brinca de forma genial e ressignificada com a gíria e o formato das tradicionais Comic Cons) tinha o objetivo claro de dar visibilidade e protagonismo para artistas do mercado de quadrinhos, ilustrações e artes gráficas. O que começou com o espírito corajoso de um evento de guerrilha cresceu de forma exponencial. Em poucos anos, o evento rompeu as barreiras do circuito independente para se consolidar como o maior evento de cultura pop com foco na diversidade do Brasil e a maior feira de artes queers de toda a América Latina.

    Poc Con 2026 / Reprodução: https://www.instagram.com/poc_con/

    Muito Além dos Quadrinhos: Um Território de Identificação

    Embora os quadrinhos estejam cravados em seu DNA de fundação, a Poc Con expandiu seus horizontes de forma impressionante. Hoje, ao cruzar as portas do evento, o público se depara com um ecossistema completo de cultura pop que abraça a literatura de fantasia, o mercado de games, animações e grandes discussões do universo geek. As tradicionais mesas do Artists’ Alley (Beco dos Artistas) dividem espaço com painéis densos e necessários sobre empregabilidade, representatividade no mercado editorial e oficinas de criação.

    Além disso, o evento se tornou um palco vibrante de expressão através dos cosplays. Ver heróis clássicos, personagens de anime e ícones dos games reimaginados sob a ótica da diversidade é um espetáculo à parte. Isso ganha o ápice do entretenimento com o aclamado Cosplay Lip Sync Challenge, um concurso de dublagem que mistura o capricho visual das convenções tradicionais com a energia performática e o carisma da cultura drag. É a prova definitiva de que a Poc Con fala a nossa própria linguagem, criando pontes entre o consumo de mídia e a nossa vivência real.

    Credibilidade e Impacto no Cenário Nacional

    A importância da Poc Con não se resume apenas ao afeto; ela é medida em relevância técnica e reconhecimento de mercado. A feira se provou tão necessária e bem-estruturada que, mesmo diante do desafio do isolamento social há alguns anos, a edição digital (Poc Con em Casa) foi coroada com o prestigiado Troféu HQ Mix na categoria de Melhor Evento. Trata-se do “Oscar dos quadrinhos brasileiros”, o que chancela a feira como um marco profissional indiscutível.

    Essa força atrai anualmente grandes nomes da cena artística nacional e internacional. Nomes gigantescos como Laerte, Gabriel Picolo, Lukas Werneck e Ilustralu já passaram por suas edições, dividindo o mesmo espaço e recebendo o mesmo nível de prestígio que novos talentos independentes que estão lançando seus primeiros zines. Essa troca democrática oxigena o mercado cultural brasileiro, injetando narrativas frescas, plurais e comercialmente viáveis que, de outra forma, poderiam nunca chegar às grandes livrarias ou plataformas de streaming.

    Poc Con 2026 / Reprodução: https://www.instagram.com/poc_con/

    E 2026?

    A edição de 2026 provou que a Poc Con atingiu definitivamente outro patamar ao ocupar um pavilhão no Anhembi — dividindo o mesmo solo sagrado de gigantes do mercado como a gamescom latam —, um salto monumental para um projeto que começou despretensioso em 2019 com 3 mil pessoas e hoje gerencia multidões que já haviam batido a marca dos 16 mil visitantes no ano anterior. Claro que abraçar essa nova escala trouxe algumas dores de crescimento inevitáveis: a mudança para um espaço maior gerou queixas de lotação no sábado e a falta de um transfer gratuito até o metrô tornou o trajeto a pé pouco convidativo para o público.

    Contudo, esses perrengues de infraestrutura são engolidos pela grandiosidade do saldo positivo. Ver os idealizadores comandando uma equipe de 70 profissionais — em sua maioria pessoas LGBT+ contratadas para fazer o evento girar — é a prova real de que a feira não apenas discursa sobre representatividade, mas gera empregabilidade e movimenta a engrenagem da nossa própria comunidade. Entre mesas lotadas, workshops disputados e um Artists’ Valley que parecia não ter fim, o evento preservou intacto o seu maior trunfo: o afeto e o acolhimento.

    A Poc Con 2026 se consolidou não apenas como o principal polo de faturamento e visibilidade para a arte queer nacional, mas como aquele porto seguro essencial que nos faz sair de lá já contando os dias para 2027 — mesmo sabendo que a fatura do cartão de crédito vai precisar de meses para se recuperar de tanto quadrinho e print lindo.

    Poc Con 2026 / Reprodução: https://www.instagram.com/poc_con/

    O Retorno para Casa

    No final das contas, o maior trunfo da Poc Con não está nos relatórios de vendas ou no número de ingressos distribuídos, mas sim na sua capacidade de cura coletiva. Ela se consolidou como um território de afeto. Em um país que historicamente lidera estatísticas violentas contra a comunidade LGBTQIA+, ter um pavilhão inteiro onde o amor, a identidade e o orgulho são as regras do jogo — e não a exceção — é um ato de soberania cultural.

    A Poc Con é, em sua essência, a nossa casa. É um espaço que abraça a todos e que certamente continuará sendo o lar de muitas e muitas histórias que ainda estão sendo escritas. Ao caminhar por aqueles corredores coloridos, ver a mascote Pocotó animando a galera e olhar para o lado, a ficha finalmente cai. Aquela criança que assistia a desenhos animados escondida no quarto, com medo de que o mundo descobrisse quem ela era, finalmente pode olhar em volta, sorrir e perceber que encontrou o seu lugar.

    Esse texto é parte do especial do Mês da Visibilidade LGBTQIAPN+ do Geek Guia

    • Veja também: Você precisa ver Paris is Burning
    Especial HQ LGBTQIAPN mangá Mês da Visibilidade LGBT+ notícias Poc Con Quadrinhos Representatividade
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    Will Weber

    Editor-chefe do Geek Guia, professor de Língua Portuguesa e podcaster.

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