Wicked: Parte 2 honra o legado criado por Wicked nos palcos, atravessando gerações com sua mensagem potente e belíssimas canções.
Estamos de volta à terra do OZ! Wicked Parte 2 chegou aos cinemas e vamos te contar um pouco mais sobre o mais aguardado filme musical do ano.
Não é novidade pra ninguém que Wicked já se tornou uma instituição. O musical criado pelo genial Stephen Schwartz e baseado no romance de 1995 de Gregory Maguire chegou aos palcos da Broadway em 2003 e desde então é um dos maiores sucessos do mundo dos teatros musicais. A adaptação de um fenômeno como Wicked não poderia ser feita de qualquer forma, então o filme trouxe uma grande responsabilidade para as mãos do diretor Jon M. Chu, conhecido por outras grandes adaptações para o cinema de musicais como In The Heights (2021).
Falando da Adaptação
Inicialmente, dividir a história em duas partes me preocupava. Apesar de o teatro nos palcos também ser dividido (assim como outras peças), trazer dois filmes pareceu uma tentativa de estender o hype por pelo menos mais um ano, mas eu não poderia estar mais errado. Jon M. Chu precisava de tempo pra respirar e criar.
O diretor conseguiu adaptar o material que tinha em mãos com muita maestria, honrando toda grandiosidade de Wicked. Algumas escolhas podem ser questionadas, como a inclusão das novas músicas, mas é inegável a forma como o diretor amplia os elementos trazidos no palco, dando mais profundidade e funcionalidade pra questões muitas vezes apagadas pela pressa que um ato de 1 hora.
O roteiro tem falhas, isso é um fato, mas isso não é culpa do filme. Quem já conhece o material original sabe que o segundo ato de Wicked é corrido e isso também se espelha diretamente no roteiro do longa. Apesar de suas 2 horas e 20 minutos de duração, os acontecimentos se desenvolvem de forma apressada para dar mais profundidade a história, trazendo detalhes até mesmo presentes no livro que inspirou o musical.
Com todas as cartas dadas e um universo bem construído no primeiro filme, o roteiro tem mais espaço pra se aprofundar nas questões principais. A luta da Elphaba pela libertação dos Animais e os dilemas da Glinda por seu novo papel como A Bruxa Boa são bem explorados e entrelaçados entre si. Essa dualidade dá o fio condutor ao longa, com outras questões ao redor, como o drama dos Munchkins com sua nova governadora.
Além disso, essa é a hora em que os universos de Wicked e o Mágico de Oz se encontram. A história desde o princípio tem como proposta trazer a história não contada das bruxas de Oz, então finalmente podemos entender como essas histórias se entrelaçam diretamente.

Dorothy e seu lugar na história que não é sua
Uma das escolhas mais questionadas desde as primeiras exibições do filme é exatamente a forma como a Dorothy, figura central de O Mágico de Oz, é apagada, mas essa é uma decisão assertiva. Essa não é uma adaptação de O Mágico de Oz e muito menos um filme sobre a Dorothy, então não mostrar o rosto da Dorothy e apenas pincelar com elementos da história original é uma forma de dizer que as protagonistas são outras, essa é apenas a forma de nos relembrar a que referências o clássico existem e nos deixar com um gostinho de quero mais.
Falando nas protagonistas, precisamos falar sobre Elphaba e Glinda. Cynthia Erivo é, sem dúvidas, uma entidade. A Elphaba é um dos papéis mais desafiadores da Broadway, não apenas vocalmente, mas principalmente pelo crescimento da personagem durante toda a sua jornada. Na parte 2, temos uma Elphaba muito mais madura e até mesmo sofrida em alguns aspectos, pois agora ela acrescenta a todos as suas questões pessoais a luta por uma causa, tendo quase toda Oz contra ela e com a genuína dúvida de que a sua causa realmente vai vingar ou é apenas ela mesma se colocando na posição em que o mundo sempre a colocou.
Erivo deixa para trás a Elphaba doce e “frágil” trazida na primeira parte para dar espaço para uma Elphie forte e imponente. É completamente impressionante pensar que a primeira e a segunda parte foram gravadas de forma simultânea e intercalada, pois a transformação da personagem entre os dois filmes é perceptível, dando muito mais maturidade e o peso necessários para Elphaba. A corrida pelo Oscar vem forte.
Já Ariana Grande não fica para trás. A parte dois é o momento no musical em que a Glinda mais brilha e dessa vez não foi diferente. Enquanto Elphaba precisa se esconder e atuar de forma secreta, Glinda precisa ser vista, mas toda essa exposição – que sempre foi seu sonho – começa a trazer inseguranças e dúvidas para a queridinha de Oz.
A Glinda de Ariana segue completamente carismática, espontânea e cômica, mas agora temos uma figura muito mais vulnerável, trazendo camadas para a personagem. Em muitos momentos, é Ariana que segura o filme, contrastando diretamente com outros em cena.

Nem todo mundo acerta, mas as músicas…
E sim, infelizmente estamos falando sobre Michelle Yeoh. Nunca vou perdoar o Jon M. Chu por essa escolha. Michelle é uma atriz sensacional e não temos dúvidas da sua capacidade por seus trabalhos anteriores, mas esse destoa completamente. Yeoh entrega uma Madame Morrible fraquíssima em diversos aspectos, especialmente no vocal, algo pouco importante em um filme musical né…
Outro elo mais fraco, especialmente nessa segunda parte, é Marissa Bode. Nessarose tem um papel fundamental para o desenvolvimento do segundo ato e Bode não consegue sustentar isso. É sensacional ter a representatividade trazida para a tela em um personagem com eficiência, mas Marissa definitivamente não traz densidade necessária para a personagem.
Apesar disso, uma surpresa completamente positiva que temos nessa segunda parte é Ethan Slater. Nos palcos, a personagem de Boq não tem muito destaque em ambas as partes, servindo como plot twist e ponto de ligação com O Mágico de Oz, mas Ethan realmente conseguiu fazer um mousse trazendo um Boq denso e imponente, especialmente após a sua transformação.
Os números musicais mantêm o alto padrão do primeiro filme. Com atos grandiosos em aspectos como coro, coreografia e construção de cenas, Wicked Parte 2 honra tudo o que Wicked é como instituição, porque um dos maiores musicais na Broadway precisava de números a altura.
Temos um destaque gigante para canções como No Good Deed, que tem um espetáculo de Cynthia Erivo dando a sua cara para uma das músicas mais potentes do segundo ato, e For Good, que dá nome ao filme e traz a maior carga emocional da segunda parte.
Além disso temos a inclusão de duas novas músicas “No Place Like Home” e “Girl in the Bubble”. Com a justificativa de aprofundamento nas personagens, as novas músicas não cumprem ao que se propõem. Apesar de bons momentos, as novas canções dão a impressão de uma tentativa desesperada por um Oscar de Melhor Canção Original, pois se apresentam de forma fraquíssima, especialmente comparada ao restante das músicas do longa.

Venha ver esse mundo esmeralda, de novo!
Toda a construção no universo de Oz é fantástica. Desde o primeiro filme, é possível perceber o cuidado com cada detalhe da composição de cena, trazendo cenários grandiosos e altamente imersivos. Isso não é diferente na segunda parte, mas agora saímos das fronteiras da Universidade Shiz e a Cidade das Esmeraldas para conhecer outras fronteiras como a Terra dos Munchkins, Kiamo Ko e outros locais do universo de Oz.
Toda a fotografia é construída de forma mágica e imersiva, realçando toda a beleza do mundo construído por Jon M. Chu na tela. A direção de arte e os figurinos vem para coroar todo o universo criado, desde os detalhes dos cartazes da caça a bruxa até os figurinos coloridos, vibrantes e com formatos irregulares. Destaque para as transformações do Homem de Lata e do Espantalho.
Apesar dos animais 100% feitos em CGI serem um enorme destaque no filme, precisamos pontuar uma falha bizarra na cena que mostra o Mágico de Oz no passado. Tirando essa cena em específico, os efeitos visuais são muito bem feitos e utilizados.
Wicked desde sempre aborda temas fundamentais. O preconceito enraizado na sociedade, a marginalização de algumas camadas da população, a manipulação por parte da mídia e outras discussões que ainda se mantém atuais mesmo após quase 20 anos da estreia do musical. São questões altamente identificáveis que atravessam diretamente ao público, independente se você é um grande fã de musicais ou está chegando em Oz pela primeira vez e, talvez, esse seja um dos grandes fatores contribuintes para o sucesso da produção.
Falando como fã de musicais e da própria obra Wicked, eu estou achando divertidíssimo ver todas as minhas bolhas assistindo o filme e comentando sobre diversos aspectos do longa, desde sua mensagem transmitida até outras questões que não seriam abordadas se não fosse pelo filme. O propósito do entretenimento sempre vai ser esse, alcançar pessoas, trazer boas histórias e boas mensagens ao público e, por meio da arte, fazer refletir ou apenas entreter.
E vale o ingresso?
Ao fim, Wicked: Parte 2 honra o legado criado por Wicked nos palcos, atravessando gerações com sua mensagem potente e belíssimas canções. Os novos elementos trazidos à história não acrescentam, mas também não trazem ônus a história, então não incomodam.
As atuações de Cynthia e Ariana abrilhantam ainda mais os papéis altamente conhecidos pelo público e coroam essa adaptação como uma das mais fiéis e dignas no mundinho de musicais, alcançando a todos os públicos e mostrando que, realmente, não há lugar como o nosso lar.
Wicked: Parte 2 está em cartaz nos cinemas!
- Veja também: Crítica de Wicked: Parte 2 da Gabi Costa Dias
Ao fim, Wicked: Parte 2 honra o legado criado por Wicked nos palcos, atravessando gerações com sua mensagem potente e belíssimas canções. Os novos elementos trazidos à história não acrescentam, mas também não trazem ônus a história, então não incomodam.