Quinze Dias é uma daquelas raras adaptações que entende a alma do material original e não abre mão dela.
Desde a primeira vez que li Quinze Dias, se tornou um dos meus livros preferidos. É uma história simples, sem grandes dramas, mas que consegue, de um jeito bem despretensioso, contar algo que conversa direto com gente que a cultura pop sempre deixou de lado, mas que existe. Então quando soube que ia virar filme, confesso que fiquei genuinamente feliz. Apesar da distribuição pífia do filme nas salas brasileiras, finalmente tive a oportunidade de assistir.
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A trama acompanha Felipe, um adolescente extremamente inseguro e cansado do bullying constante no colégio. Pra ele, as férias de julho eram pra ser o refúgio perfeito: quarto fechado, livros ou série no streaming e o principal ninguém por perto. Só que os planos vão por água abaixo quando Caio, seu vizinho e amor platônico de infância, aparece pra passar duas semanas hospedado na casa dele. A convivência forçada que faz reascender um sentimento meio por acidente, não tem nada de revolucionário nisso, mas funciona muito bem.
Miguel Lallo e Diego Lira têm uma química que soa espontânea de verdade. Dá pra acreditar que os dois poderiam se apaixonar naquele contexto, sem parecer forçado (como a mnaioria dos gays acharam antes mesmo de ver o filme – gordofobia-). E a direção, mesmo sem grandes ousadias, acerta ao deixar os pequenos gestos contarem a história: um olhar que dura um segundo a mais do que deveria, silêncios que dizem mais do que qualquer fala.

Contando de um jeito certo, mas preso a clichês
Vale abrir um parêntese aqui, porque acho que isso importa: uma comédia romântica adolescente com protagonista gay e gordo no centro da história, sem transformar isso em tragédia nem em piada, ainda é raridade. A sexualidade de Felipe não é o conflito central, ele já está resolvido com quem é. O drama vem de outro lugar, daquele medo bem universal de não ser correspondido, e isso aparece muito na relação que ele tem com o próprio corpo.
Quem leu o livro sabe que a graça do romance de Vitor Martins nunca esteve em reviravoltas ou aprofundamentos dramáticos, e sim nos pequenos momentos, no jeito cotidiano como o amor vai se aflorando sem muito alarde nenhum. O filme entende isso e resiste à tentação de inflar a trama com conflitos artificiais só pra preencher tempo de tela. Isso já diz muito sobre o cuidado da adaptação.
Mas nem tudo é perfeito.
A estrutura segue tão à risca os clichês do gênero que às vezes parece estar copiando comédia romântica americana e acaba não encontrando uma identidade totalmente própria. A direção de Daniel Lieff é competente, mas joga quase sempre no seguro, sem arriscar muito visualmente ou narrativamente. E alguns conflitos secundários, principalmente os que envolvem a família de Felipe, ficam devendo profundidade, como se o roteiro tivesse medo de pesar a mão e quebrar o tom leve que sustenta o filme inteiro. Dá pra entender, dado o público-alvo, porém também é a diferença entre um filme bom e um filme inesquecível.

E vale a pena assistir?
Mas sendo justa, seria incorreto achar que o Quinze Dias seria algo que ele nunca se propôs a ser.
Mesmo achando que a produção poderia ter arriscado um pouco mais, ela não quer reinventar a comédia romântica, quer só te dar um pouco de conforto, nostalgia adolescente e aquele frio na barriga do primeiro amor. E nisso ele acerta em cheio. É daqueles filmes pra assistir num domingo chuvoso, exatamente pra se sentir abraçado, sem drama excessivo, sem pretensão nenhuma de grande obra, só aquela vontade boa de torcer por dois personagens que a gente ama e, de alguma forma, se reconhece.
No fim das contas, é uma daquelas raras adaptações que entende a alma do material original e não abre mão dela. Fiel ao espírito do livro, doce sem ser extremamente meloso. Não é ousado e nem inesquecível, mas cumpre exatamente o que se propõe, e faz isso com um carinho que dá pra sentir em cada cena.
Quinze Dias está disponível na Netflix
- Veja também: Crítica de Camp Rock 3
Quinze Dias é uma daquelas raras adaptações que entende a alma do material original e não abre mão dela. Fiel ao espírito do livro, doce sem ser extremamente meloso. Não é ousado e nem inesquecível, mas cumpre exatamente o que se propõe, e faz isso com um carinho que dá pra sentir em cada cena.
