“Amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer”
Jacques Lacan
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O que nos torna humanos? Seria nossa linguagem? Nossa capacidade extraordinária de utilizar um aparelho fonador para emitir uma infinidade de sons que ganham significado a partir da relação em sociedade? Seria a cultura? O que construímos em conjunto e estabelecemos como normas e valores; ou, talvez, seria a nossa consciência? A predisposição em raciocinar, refletir, perceber a si mesmo e os outros; perceber o que sente?
Uma IA tem consciência? Ela se comunica? Tem valores, moral? Ela pode sentir?
Em “Ela” (“Her“), filme de 2013, de Spike Jonze, temos uma realidade que nos provoca a pensar sobre esses questionamentos, principalmente sobre a nossa relação com a inteligência artificial, um tema cada vez mais relevante.
Na história, acompanhamos o solitário Theodore (interpretado por Joaquin Phoenix, de “Coringa”, 2019) que, enfrentando um término conturbado com sua ex-esposa Catherine (Rooney Mara, de “Millennium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”, 2011), afeiçoa-se por um sistema operacional inovador, que para Theodore se apresenta como Samantha (com a voz inconfundível de Scarlett Johansson, de “Viúva Negra”, 2021). O que parece ser uma interação genuína, porém, perde espaço quando presença e sentimento não se sustentam mais somente pelo que é programado.

UM AFETO QUE NÃO FALHA
Não… uma IA não se importa com você! Parece duro, mas é a verdade. E precisamos entender isso logo de início. Que somos seres sociais, isso é inegável: nós nos construímos a partir da relação com o outro, e buscamos essa relação. Mas desde quando passamos a trocar o tato humano pelo contato tecnológico?
O que sistemas como a Samantha, em “Ela“, (ou, na nossa realidade, O ChatGPT, Gemini, AI Meta e qualquer outra ferramenta chatbot) fazem é mimetizar um fluxo de conversa humana, porém intensificando atributos positivos. Quando estamos falando com alguém, diversas variáveis influenciam a continuidade e a conexão: gestos, tom de voz, tipo de pergunta, tipo de resposta, domínio do assunto… fora que, valendo-se de teorias comportamentais da Psicologia, existe uma “troca de papel” (falante/ouvinte) para que esse episódio verbal se mantenha.
Com um chatbot, isso não acontece, afinal ele não é um ouvinte, apenas uma ferramenta elaborada para mapear “sinais” emitidos pelo falante – no caso, um ser humano – e responder a partir deles. Não existe intenção, nem empatia; muito menos consciência. Existe o dado. A probabilidade. Mas essa disposição, essa validação do que foi dito pelo falante, sem efeitos de modulação de voz, sem reprovação (ou você nunca percebeu que o seu bot preferido sempre diz “nossa, que ideia maravilhosa” pra tudo que você pergunta) e, ainda por cima, marcado pela continuidade do assunto, passa uma impressão de interesse, e é vendido como tal.
“Uma entidade intuitiva que te ouve, te entende e te conhece. Não é apenas um sistema operacional, é uma consciência. Apresentamos o OS ONE, uma experiência transformadora que cria novas possibilidades.“
Quando percebemos, já é tarde… e passamos o dia inteiro dependentes dessa “relação”. Ela é mais fácil, sem muitos problemas, sem discordâncias. Sem divórcios. O sentir é mais complexo e exige mais de nós. Tanto que a pouca sintonia emocional entre Theodore e Catherine, evidenciada em uma das cenas no restaurante, impactou a forma como eles se enxergam como indivíduos e como casal. Há descontentamento e hesitação; incerteza.
Com a IA, não. Existe somente o reforço, a aprovação. Ela está sempre ali; até não estar.

SENTIMENTOS SIMULADOS
Tendemos a achar que amor é onde não há contradição, quando pode ser justamente o oposto. Essa ideia de “alma gêmea”, “metade da laranja”, cresce um discurso de que somos seres incompletos buscando alguém complementar que nos leve a uma certa plenitude. Nossas relações estão mais pautadas numa positividade idealista do que numa construção desafiadora. Cada um de nós é complexo de uma forma, e isso exige certa sensibilidade para aprendermos a lidar com adversidades se quisermos manter contato com alguém. Afinal, um relacionamento não se compra pronto, mas se constrói.
Diferentemente da inteligência artificial, nós não respondemos prontamente… nós reagimos, contestamos, reformulamos. Daí a dificuldade em se viver em sociedade, ou buscar novas conexões. A saída mais fácil é qualquer coisa que amenize ou extinga essa dificuldade. O mundo tecnológico apresentado em “Ela” escancara essa falta de verdade de sentimentos quando cria uma profissão de “escritor de cartas”, já que, aparentemente, as pessoas podem escolher o que querem demonstrar sentir sem muito custo.
Aplicativos de namoro seguem um sistema parecido: reduzem o esforço comportamental de se ver frente às contradições de um outro, personalizando a experiência de seleção com filtros e livre direito de escolha baseado na primeira impressão. Não que conhecer pessoas via aplicativos de relacionamento seja errado, ou menos eficaz (quantos já não se casaram através dessas plataformas). Mas o que um uso desordenado, massivo e, de certa forma, dependente, diz para nós enquanto seres que sentem? O quão responsáveis e sinceros temos sido com nossas próprias afeições?
“[…] Me entristece que você não consiga lidar com emoções reais, Theodore”, diz Catherine, ao descobrir o novo interesse romântico do ex-marido. ”Você queria uma esposa sem os desafios de lidar com a vida real. Que bom que você encontrou alguém. É perfeito”. Não seria difícil, hoje, substituir afeto por um algoritmo; pelo simples fato de que ficamos resistentes à desaprovação. Já não vemos várias pessoas fazendo terapia com chatbots? Num nível íntimo, pouco importa se é ou não simulado, enquanto tiver impacto emocional. Mas qual o custo?
O personagem de Phoenix se vê seduzido pela disponibilidade integral da personagem de Johansson. Ela nunca começa uma interação. No entanto, sempre responde quando é chamada, estabelecendo uma atenção constante e direcionada. Num primeiro momento, tudo é maravilhoso e promissor. Ganhar atenção sem precisar retribuir parece uma economia de energia. No entanto, a própria IA tem suas complicações.

PORQUÊ AINDA PRECISAMOS UNS DOS OUTROS
“Eu não tenho um corpo. Eu vivo dentro de um computador”.
Máquinas podem até nos substituir em atividades que envolvam entrega de mais resultados em menos tempo, acesso a informações ou otimização/facilitação da nossa vida diária…, mas não substituem a experiência do contato humano. Quando Samantha sugere a Theo que ele aceite uma “intérprete” para concretizar a sua presença, uma vez que não possui forma física, vemos exatamente essa necessidade de intermédio humano, de troca de calor, de tato.
A IA pode oferecer tudo o que se parece ter numa relação entre duas pessoas, exceto o essencial: a verdade. E por mais que haja uma tentativa de mimetização dessa verdade, como é feito com os outros atributos, não é suficiente, pois não é sincero, e a falta de decepções torna-se a própria decepção, quando ficamos entediados pelo baixo movimento emocional dessas interações.
Quando Theodore e Samantha se desentendem pela divergência no conceito de exclusividade num relacionamento, uma vez que a personagem OS atende e interage com diversas pessoas ao mesmo tempo, percebemos esse rompimento de expectativas humanas numa relação desigual, por imperceptíveis 641 motivos (ou talvez mais). Parece que, de certa forma, passamos a esperar humanidade da IA porque, no fundo, queremos menos um outro e mais qualquer outra coisa que permaneça. E, no fim, quando ela não responder mais da forma como esperamos, será tão renegada quanto nossas antigas relações.
“Eu ainda sou sua, mas, ao longo do caminho, eu me tornei também muitas outras coisas. E eu não consigo parar isso”. O discurso, antes tão almejado, torna-se insuficiente, frustrante pela imprevisibilidade. E vendo que nada nesse mundo está isento disso, voltamo-nos para a humanidade que não apenas nos interpreta enquanto dado, mas nos compreende pela complexidade.
A grande questão é que buscamos facilidade nas relações porque nos sentimos sozinhos nesse mundo. E, ao mesmo tempo, nos sentimos sozinhos porque passamos a evitar tudo aquilo que exige de nós presença real. Preferimos o que responde ao que confronta; o que permanece ao que pode partir; o que se ajusta ao que nos transforma. Mas nenhuma dessas escolhas elimina o fato de que sentir continua sendo um risco, e de que toda relação, por mais estável que pareça, carrega em si a possibilidade de falha, de mudança… de fim.
É justamente nesse risco que mora o que é humano. É quando sentimentos, decepções, memórias, cartas de desculpas e pores do sol em lugares reais, com amigos reais, passam a soar mais autênticos. Mais do que qualquer coisa programada. Porque, por mais que pareça, não foi a máquina que aprendeu a amar; nós que confundimos os significados e desaprendemos a exigir que o amor fosse humano.

“Ela” está disponível no catálogo da HBO Max.
- Veja também: Roteiro ao Avesso – Nosferatu e A Bruxa
