Bora conferir todas as versões de Carrie, a Estranha nas telas!
Quando o jovem professor Stephen King jogou as primeiras páginas datilografadas de Carrie no lixo do seu pequeno trailer, ele não imaginava que sua esposa, Tabitha, resgataria os papéis amassados e o incentivaria a terminar a história. Publicado em 1974, o romance epistolar sobre uma adolescente tímida, vítima de bullying sistemático na escola e de abuso religioso dentro de casa, não apenas lançou a carreira do “Mestre do Terror”, mas inaugurou uma relação visceral entre a obra de King e a sétima arte.
Com sua mistura avassaladora de poder telecinético, repressão sexual, fanatismo e crueldade juvenil, a tragédia de Carrie White tornou-se um mito moderno da cultura pop. Ao longo das décadas, a história do baile de formatura banhado em sangue ganhou diversas releituras no cinema e na televisão — algumas consagradas como obras-primas, outras lembradas como curiosos fracassos.
1976: A obra-prima de Brian De Palma e o nascimento de um clássico
Apenas dois anos após o lançamento do livro, o diretor Brian De Palma assumiu o desafio de transpor a narrativa fragmentada de King para os cinemas. O resultado foi Carrie, a Estranha (1976), um divisor de águas no cinema de horror que contou com atuações antológicas de Sissy Spacek (como Carrie) e Piper Laurie (como a opressiva e fanática mãe, Margaret White).
De Palma utilizou uma linguagem estilizada e expressionista para traduzir a angústia da protagonista, consagrando a famosa cena da tela dividida (split screen) e o uso da câmera lenta na icônica sequência do balde de sangue de porco. A entrega das atrizes principais foi tão impactante que o filme conquistou um feito raríssimo para o gênero na época: indicações ao Oscar de Melhor Atriz para Spacek e de Melhor Atriz Coadjuvante para Laurie.
- Curiosidades de bastidores: Sissy Spacek quase não conseguiu o papel principal; o diretor originalmente pensava em Amy Irving para viver Carrie (Irving acabou ficando com o papel da colega Sue Snell). Para garantir o papel, Spacek foi aos testes sem lavar o rosto, com vaselina nos cabelos e vestida com um vestido antigo feito por sua mãe para parecer o mais desleixado possível. Além disso, a atriz fez questão de gravar ela mesma a cena da mão saindo da terra no final do filme: era a própria Sissy enterrada sob os escombros para dar veracidade ao plano.

1999: A continuação desnecessária
Aproveitando o boom do terror teen do final dos anos 1990 (impulsionado por Pânico e Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado), a 20th Century Fox decidiu lançar A Maldição de Carrie (The Rage: Carrie 2, 1999). Dirigido por Katt Shea, o longa não é uma refilmagem, mas uma sequência direta do clássico de 1976.
A trama acompanha Rachel Lang (Emily Bergl), uma jovem marginalizada que descobre ser meia-irmã de Carrie White por parte de pai e que também herdou poderes telecinéticos. Quando um grupo de garotos babacas do time de futebol da escola humilha sua única amiga, a jovem desencadeia uma carnificina usando seus dons mentais durante uma festa.
- Curiosidades e conexões: O único grande elo de ligação entre os dois filmes é a presença da atriz Amy Irving, que reprisa seu papel como Sue Snell — agora trabalhando como conselheira escolar e tentando desesperadamente evitar que a nova garota repita a tragédia vivida por Carrie no passado. Apesar do uso de flashbacks do filme original de De Palma, o longa foi um fracasso retumbante de crítica e bilheteria.

2002: O telefilme que tentou virar série de TV
Apenas três anos após o fracasso do segundo filme, a rede de televisão americana NBC encomendou uma nova adaptação direta do livro original. Lançado como um filme feito para a TV com mais de duas horas de duração, Carrie (2002) foi escrito por Bryan Fuller (que mais tarde criaria a aclamada série Hannibal) e estrelado por Angela Bettis.
Esta versão buscou ser substancialmente mais fiel à estrutura epistolar do livro de Stephen King do que o filme de 1976, incorporando os depoimentos em formato de documentário e a investigação policial após a destruição da cidade de Chamberlain. No entanto, a produção sofreu drasticamente com o orçamento reduzido da TV aberta e com os efeitos visuais digitais precários do início dos anos 2000.
- Curiosidades do projeto: O filme foi concebido originalmente como um episódio piloto para uma potencial série de televisão semanal. Por conta dessa decisão criativa, o roteiro alterou radicalmente o final trágico do livro: em vez de morrer nos braços de Sue Snell após o ataque, Carrie é reanimada por Sue na banheira e foge para a Flórida para tentar recomeçar a vida sob outra identidade. Como o projeto não foi comprado pela emissora para virar série, a ideia morreu, deixando um dos finais mais equivocados e anticlimáticos das adaptações do autor.

2013: A refilmagem moderna com Chloë Grace Moretz
Na era dos remakes hollywoodianos, a Screen Gems escalou a diretora Kimberly Peirce (Meninos Não Choram) para atualizar a tragédia de Carrie para a geração dos smartphones e das redes sociais. Em Carrie, a Estranha (2013), Chloë Grace Moretz assumiu o papel da jovem telepata, enquanto a veterana Julianne Moore entregou uma interpretação assustadora e dolorosa como a mãe religiosa, Margaret White.
A refilmagem trouxe uma abordagem mais focada no drama do cyberbullying — a humilhação do banheiro passa a ser gravada por celulares e viraliza na internet — e entregou cenas de destruição no baile muito mais pirotécnicas, impulsionadas pelos efeitos visuais modernos e por um controle mais consciente que Carrie passa a ter de seus poderes.
- Curiosidades e bastidores: Uma das maiores críticas que o filme recebeu da imprensa e dos fãs foi o fato de Chloë Grace Moretz ser vista como “bonita e hollywoodiana demais” para o papel de uma garota desajeitada e ostracizada. A atriz Shailene Woodley chegou a recusar o papel antes de Moretz ser escalada. Durante a campanha de divulgação do longa, a produção criou uma pegadinha épica em um café em Nova York, onde dublês e atores simulavam um ataque telecinético com cabos e móveis se movendo sozinhos, tornando-se um dos vídeos promocionais mais vistos da internet na época.

A bizarra versão musical
Embora não seja uma adaptação cinematográfica, é impossível falar da história de Carrie sem mencionar a lendária e desastrosa versão teatral de 1988: Carrie: The Musical.
Com composições de Michael Gore e Dean Pitchford, o espetáculo estreou na Broadway com um orçamento milionário e uma produção extravagantemente datada que misturava tragédia grega, rock dos anos 80 e figurinos excêntricos. O resultado foi um dos maiores e mais caros fracassos da história do teatro americano, fechando as portas após apenas 16 prévias e 5 apresentações oficiais.
Contudo, com o passar das décadas, o show ganhou status cult, teve suas músicas gravadas novamente e foi reformulado com sucesso em produções off-Broadway em 2012. A obra até hoje é homenageada pela cultura pop, tendo ganhado um episódio musical especial na famosa série adolescente Riverdale.

A reimaginação por Mike Flanagan no Prime Video
Atendendo aos pedidos de fãs de longa data do horror, o autor Stephen King encontrou no cineasta Mike Flanagan (A Maldição da Residência Hill, Missa da Meia-Noite, Doutor Sono) o nome perfeito para levar a tragédia de Carrie White ao formato de minissérie. Produzida para o Amazon Prime Video com estreia marcada para 7 de outubro de 2026 (com todos os 8 episódios disponibilizados de uma vez), a nova versão foi concebida para expandir a história original mantendo um olhar psicológico denso e emocionante.
Na nova trama, a atriz Summer H. Howell interpreta Carrie White, enquanto a colaboradora frequente de Flanagan, Samantha Sloyan, assume o papel da mãe religiosa, Margaret White. O elenco ainda conta com Amber Midthunder como a professora de educação física Rita Desjardin, Siena Agudong no papel de Sue Snell e Josie Totah como Tina Blake.
- Curiosidades e bastidores:
- O maior teste de elenco de Flanagan: Mais de 1.400 atrizes fizeram testes para interpretar a protagonista até que Summer H. Howell fosse escolhida, em uma das maiores buscas de elenco da carreira do diretor.
- Humanização e complexidade: Diferente da visão puramente caricata do fanatismo religioso de adaptações anteriores, a Margaret White de Samantha Sloyan é retratada com camadas inéditas — uma figura aterrorizante, porém guiada por um medo real de proteger a filha do mundo.
- Expansão do universo telecinético: A minissérie expande o universo criado por Stephen King ao introduzir uma linha narrativa paralela sobre outras mulheres ao longo da história que apresentaram dons telecinéticos semelhantes aos de Carrie, ampliando o folclore ao redor dos seus poderes.

O sangue que nunca seca
Mais de meio século após a publicação do livro original, a história de Carrie White permanece assustadoramente atual. As diferentes adaptações provam que, seja sob a estética estilizada dos anos 70, através do filtro das câmeras digitais modernas ou no palco de um teatro, a dor de uma jovem acuada pelo preconceito e pela intolerância continua ressoando no peito do público.
Carrie pode ter destruído sua pequena cidade no Maine, mas cravou para sempre o seu nome no topo do panteão do horror mundial.
A nova série de Carrie, A Estranha estreia dia 07 de Outubro no Prime Video.
- Veja também: Crítica de Verity
