Capítulos
A angústia é a disposição fundamental que nos coloca perante o nada
Martin Heidegger
O mês de setembro é dedicado à conscientização sobre o cuidado com a saúde mental e, principalmente, à prevenção do suicídio. O cinema, como manifestação da existência humana em todos os seus aspectos, está repleto de retratos e reflexões sobre esse tema, algumas delas de extrema sensibilidade. É o caso de “Melancolia”, filme do cineasta dinamarquês Lars von Trier, lançado em 2011, que concedeu a Kirsten Dunst o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes daquele ano. Como de praxe, o polêmico diretor e roteirista enche seu projeto de alegorias e representações simbólicas que serão alvo desta análise.
Na trama acompanhamos duas irmãs, Justine (Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg, de “Anticristo“, 2009), cada uma como um capítulo-título no longa, e suas reações a um iminente fim do mundo, já que um planeta chamado Melancolia está em rota de aproximação da Terra. Enquanto Claire parece aceitar o fim de forma desesperadora, Justine, após um longo período de tristeza profunda, vê-se munida de um único sentimento: esperança.
Antes de qualquer coisa, é de extrema importância dizer que, além de possuir spoilers, este texto aborda um conteúdo sensível. O único objetivo é estimular uma interpretação crítica da manifestação da depressão a partir dos simbolismos em “Melancholia”, sem nenhuma intenção de romantização, desvalorização ou estigmatização do transtorno, reiterando meu compromisso (o redator que vos escreve) com a área da saúde mental.
Se você é ou conhece alguém que precisa de ajuda, procure o sistema de saúde e/ou pronto atendimento mais próximo, ligue para o 188 – Centro de Valorização da Vida ou acesse o site https://cvv.org.br/ para outros serviços.
Lembre-se de que você importa!
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JUSTINE E A DOR EMOCIONAL
O que é a tristeza e onde começa a depressão?
“Melancolia” é composto de um prólogo, que resume de forma visualmente belíssima o que assistiremos ao longo do projeto; e dois capítulos, cada um voltado a uma das irmãs vividas por Dunst e Gainsbourg. No primeiro deles, acompanhamos o que parece ser uma festa de casamento.
O que, tecnicamente, era para ser um dos dias mais felizes de uma noiva, parece não o ser para Justine. Ela não está bem; não está confortável. Talvez, nem tão feliz. Seria a dificuldade de manobrar uma limusine numa curva acentuada uma metáfora de que, às vezes, vemo-nos tomando um caminho que parece pequeno demais para o que realmente somos, ou nos mostramos ser?
A personagem de Kirsten Dunst se percebe presa em um mundo de significados e ritos a serem seguidos, mas que não traz sentido para sua própria vivência; um universo de votos e expectativas que não dizem respeito ao que é sincero e íntimo. O resultado é uma crescente sensação de inadequação, como se existisse um peso a ser carregado em nome da convenção social.
“Se agarram em minhas pernas… está muito difícil. É muito pesado para arrastar”, confessa a noiva à sua irmã. E como se já não bastasse a cobrança da própria consciência, os outros ao redor ainda exigem dela respostas, símbolos e significados, de forma padronizada, normativa. Ora, se a vida não tem um sentido próprio, seriam essas estratégias construídas para fugir dessa realidade cruel? Como uma forma de não lembrarmos do vazio que nos permeia?

Aos poucos, Justine não somente é atravessada pela depressão, mas mas parece perder o espaço subjetivo que existia para além dela; e ainda: rodeada de indivíduos que não a compreendem. “Todos em sua família são realmente loucos”, diz John (Kiefer Sutherland, de “24“, 2001-2010) à Claire, ao se frustrar com a instabilidade emocional da cunhada frente a seus enormes gastos com a festa, como uma espécie de ingratidão proposital. Fora das telas, não é nada diferente. Mesmo após muitos estudos, ainda existe uma dificuldade coletiva em entender a depressão como um quadro mental sério e que exige cuidados, o que contribui diretamente para uma visão embaçada sobre o que, de fato, ela é e como se manifesta.
A perda de sentido, de prazer, de gosto pelas coisas, não acontece de uma hora para a outra, muito menos se configura interesse em chamar atenção; mas torna-se uma realidade para aquele indivíduo, e obedece às regras daquele mundo em particular, que podem levar a algum tipo de deterioração. No caso de Justine, no filme, isso acontece em dois núcleos: trabalho e família.
Em um determinado momento, ela rompe com a visão exigente de seu chefe, Jack (Stellan Skarsgård, de “Duna“, 2024), e assina sua demissão. Em outro, ela vê seu recém-marido Michael (Alexander Skarsgård, de “O Homem do Norte“, 2022) deixá-la por não conseguir enxergar futuro com uma mulher que não atendesse à “norma”, ao esperado, após algumas tentativas – frustradas – de resgatá-la de sua própria mente.
Lars von Trier nos lembra de que estamos numa constante luta ideológica entre “ser” e “parecer”. Enquanto alguns já lidam bem ou vivem isso de forma automática, outros sofrem, como se estivesse sendo sufocados por um vestido de casamento apertado, enquanto o caminho até o altar (ou o caminho da vida, o próprio caminho) acaba se tornando um pesadelo.

CLAIRE E O DESESPERO INFUNDADO
Na segunda parte do filme, von Trier não abandona o aspecto psicológico-subjetivo estabelecido até então, mas adiciona um pouco de ficção científica e incrementa sua metáfora.
Justine nos é apresentada em um momento crítico, necessitando dos cuidados da irmã, que demonstra acolhimento e empatia, ao passo que o planeta Melancolia é identificado pelos cientistas numa rota próxima a da Terra. O foco de desenvolvimento aqui é em como Claire rapidamente se desespera com a mera possibilidade de um fim.
A ciência, representada na figura de seu marido John, aparece como uma tentativa humana insaciável de atribuir sentido às coisas que, por vezes, não conseguimos compreender; é uma busca por respostas constantes, pois a certeza traz paz à consciência. O ponto é justamente esse: estamos constantemente buscando justificativas, explicações, racionalizando o viver, pois não nos foi dado um manual de como viver a nossa própria vida, ou o que esperar dela.
A responsabilidade pessoal frente à própria trajetória pesa e nos paralisa frente às diversas possibilidades… seria muito mais fácil padronizar uma “vida perfeita”, marcos específicos e resultados esperados porque assim saberíamos exatamente para onde ir, ou se estamos fazendo certo.
Mas essa atribuição de sentido faz sentido para todo mundo? E se fizesse, realmente seria o ideal?
Enquanto a falta de razão relativiza e abre margem para tudo, o excesso leva a conclusões fechadas e pouco flexíveis, sem sobras para a experiência. John, sabendo exatamente do fim que o mundo teria, preferiu não aproveitar os instantes que lhe restavam; Claire desesperou-se tão facilmente que se esqueceu de que ainda havia tempo para despender com quem ainda tinha do seu lado. Diferentemente da irmã, mesmo sem depressão, Claire sucumbe ao pânico. Isso nos mostra que ninguém está isento de perder a fé em si e no mundo.
Vivemos para a justificação do fim, e nos esquecemos de experienciar os meios.

UM EXERCÍCIO SOBRE A EXISTÊNCIA
“Melancolia” é um retrato da existência humana e como nós enxergamos a vida e, por conseguinte, seu fim. Essa é a nossa única certeza, afinal: de que um dia morreremos. O que fazer até lá? Para algumas pessoas, viver é esperar a morte; se tudo acaba, não há sentido em produzir e aproveitar o meio-tempo, pois tudo terá sido em vão. Para outras, pode ser razão suficiente para estar sempre alerta, com medo de como será, ou como acontecerá, pois a vida é boa demais para não ser eterna, e a morte é um castigo.
No terceiro ato do filme, a colisão do Melancolia com a Terra passa a ser inevitável, tal qual como a morte. Justine e Claire nos lembram dessas nossas duas possíveis reações perante essa única certeza, e mostram que a aceitação de que existem coisas fora do controle é uma possibilidade. Diante do inevitável, não há o que fazer; não é o que nos cabe. Mas podemos mudar a forma como enxergamos e tomamos nosso próprio caminho.
Quando a família se abriga na cabaninha mágica, Lars von Trier nos recorda que aceitar o fim não é mórbido, mas é dar um verdadeiro sentido ao viver. Um sentido que, aos olhos dos outros, pode ser místico, ou inadequado; mas serve. Pois vivemos por nós, à medida do que nos é valioso, mesmo quando não é confortável. Quando alguém pensa em tirar a própria vida, algumas vezes não é somente da morte que estamos falando… é de uma vida que é atravessada por um contexto, uma história e uma rede de cobrança por resultados, respostas, comportamentos, esperanças, expectativas, que pode não fazer sentido pra ela.
O morrer não é uma esperança, um destino, um castigo, muito menos uma escolha simples, livre e descontextualizada. É uma lembrança de que o que é feito até lá (sentir, amar, permitir, criar, conhecer, transformar…) importa, pois é a nossa única chance. E por mais simples que isso seja, já basta!

Se você é ou conhece alguém que precisa de ajuda, procure o sistema de saúde e/ou pronto atendimento mais próximo, ligue para o 188 – Centro de Valorização da Vida ou acesse o site https://cvv.org.br/ para outros serviços.
Lembre-se de que você importa! E você não está sozinho!
- Veja também: Roteiro ao Avesso – A Odisseia
