Existem franquias que contam uma história, e existe Kingdom Hearts!
Essa obra que decidiu contar várias histórias em diferentes consoles, celulares, coletâneas, mangás e até no ritmo das músicas de Yoko Shimomura. O resultado foi uma mitologia que muitos chamam de confusa, mas que, quando vista como um todo, é uma das mais ambiciosas dos videogames.
Tudo começou em 2002, com uma ideia que parecia impossível: unir os personagens da Disney ao drama de identidade, memória e destino que a Square Enix sabe construir como ninguém. Sora, Donald e Pateta atravessaram mundos dominados pelos Heartless; ao longo do caminho, a franquia revelou que um coração pode ser roubado, dividido, adormecido, replicado e, ainda assim, encontrar o caminho de volta para alguém.
Agora, com Kingdom Hearts IV confirmado para 2027 e o mundo de Coco oficialmente revelado, além de uma nova série animada em produção para Disney Channel e Disney+, é a hora certa de voltar à origem — e entender por que cada derivado importa.
O Começo de Tudo: A Aventura que Misturou Disney e Final Fantasy
A sinopse de Kingdom Hearts parece simples: Sora, um garoto da Ilha do Destino, perde seus amigos Riku e Kairi quando seu mundo é engolido pela escuridão. Armado com a Keyblade, ele se junta a Donald e Pateta para encontrar os companheiros desaparecidos e deter os Heartless. Mas o primeiro jogo plantou perguntas que transformariam uma aventura colorida em uma enorme saga: o que é um coração? O que sobra quando ele é perdido? E por que a escuridão parece sempre conhecer Sora pelo nome?
O brilho da franquia está justamente na sua mistura. Os mundos da Disney não funcionam somente como participações especiais: eles conversam com a jornada emocional dos protagonistas. Hércules fala sobre o que significa merecer ser herói; A Pequena Sereia dialoga com o desejo de pertencer; Toy Story questiona se réplicas podem ter coração. Enquanto isso, personagens de Final Fantasy trouxeram o tempero de RPG japonês que fez a parceria parecer natural desde o início.
A chamada Saga do Buscador da Escuridão encontrou seu encerramento em Kingdom Hearts III e no DLC Re Mind. Mas a história não terminou ali. Ela apenas abriu espaço para o Arco do Mestre Perdido, a nova fase comandada por Tetsuya Nomura.
A Cronologia dos Jogos: Por que os Derivados Nunca Foram Apenas Derivados

Aqui mora a principal particularidade de Kingdom Hearts: cada jogo carrega uma peça importante do quebra-cabeça. Não importa se ele nasceu em um console, celular ou como um jogo de ritmo; em algum momento, seu enredo volta para cobrar atenção.
Para ilustrar, vamos falar dessas peças do quebra-cabeças abaixo:
| Ano de lançamento | Jogo ou Obra Relacionada | O que acrescenta à saga |
| 2002 | Kingdom Hearts | Apresenta Sora, Riku, Kairi, os Heartless e a busca pela Kingdom Hearts. |
| 2004 | Chain of Memories / Re:Chain of Memories | Introduz a Organização XIII e mostra como memórias podem ser manipuladas. |
| 2005 | Kingdom Hearts II | Expande os Nobody, Roxas, Naminé e o plano de Xemnas. |
| 2008 | Coded | Usa uma versão digital de Jiminy Cricket para aprofundar os mistérios ligados à mensagem de Naminé. |
| 2009 | 358/2 Days | Conta a tragédia de Roxas, Axel e Xion dentro da Organização XIII. |
| 2010 | Re:coded | Remake de Coded que reforça a ideia de que dados, memórias e corações estão ligados. |
| 2012 | Dream Drop Distance | Leva Sora e Riku ao exame de Mestres da Keyblade e prepara diretamente o confronto final da primeira grande saga. |
| 2013-2021 | χ, Unchained χ e Union χ[Cross] | Retorna à Era dos Contos de Fadas, aos Mestres Perdidos e à Guerra da Keyblade. |
| 2017 | 0.2 Birth by Sleep – A Fragmentary Passage e o filme χ Back Cover | Mostra a sobrevivência de Aqua no Reino das Trevas e esclarece o lado dos Mestres Perdidos. |
| 2019 | Kingdom Hearts III | Reúne os protagonistas e encerra o conflito central contra Xehanort. |
| 2020 | Re Mind | Reconta e amplia o desfecho de KH III, com foco no destino de Sora. |
| 2020 | Dark Road | Explora a juventude de Xehanort e de seus colegas em Scala ad Caelum. |
| 2020 | Melody of Memory | Jogo rítmico que recapitula a saga e entrega a ponte narrativa após KH III. |
A Square Enix reconhece oficialmente que a ordem de lançamento não é a única forma de entrar nesse universo, mas recomenda as coletâneas HD 1.5 + 2.5 ReMIX e HD 2.8 Final Chapter Prologue como o núcleo ideal para quem quer acompanhar a Saga do Buscador da Escuridão. É nelas que a série resolveu, em parte, sua antiga dependência de plataformas diferentes: 358/2 Days e Re:coded, por exemplo, aparecem em forma de cinematics remasterizadas.
O caso de Kingdom Hearts Missing-Link é uma exceção importante. O RPG mobile de geolocalização chegou a realizar testes fechados, mas teve o desenvolvimento cancelado em maio de 2025, antes de um lançamento completo. Portanto, ele faz parte da história de produção da franquia, mas não deve ser tratado como um capítulo jogável da cronologia.
A Chave do Sucesso: Mecânicas que Fizeram a Franquia Nunca Parar no Mesmo Lugar

Se a história se espalhou por tantas obras, a jogabilidade também se reinventou junto.
A base é o combate de ação: Sora salta, bloqueia, usa magia, invoca aliados e transforma a Keyblade em diferentes formas de ataque. Só que cada título aproveitou sua plataforma para fazer algo próprio.
Chain of Memories transformou golpes e feitiços em cartas; Birth by Sleep adotou o Command Deck, permitindo montar comandos e desenvolver habilidades; Dream Drop Distance levou a mobilidade ao limite com o Flowmotion e os Dream Eaters; e Melody of Memory encontrou uma maneira surpreendentemente competente de contar uma história séria em forma de jogo musical. Isso explica por que chamar todos esses títulos de “spin-offs dispensáveis” nunca foi correto. Eles mudam o jeito de jogar e, principalmente, movem a história para frente.
Essa variedade é uma das razões pelas quais Kingdom Hearts continua vivo. A franquia entende que a amizade de Sora, Donald e Pateta pode caber em um RPG de ação, mas a dor de Roxas e Xion funciona melhor em uma rotina de missões, enquanto o legado musical da série merecia um palco próprio.
A série não se prendeu a uma fórmula; ela transformou cada mudança de hardware em oportunidade.
Do Controle para a Página: O Mangá e as Outras Formas de Conhecer a Saga

Os jogos são o cânone principal, mas os mangás de Shiro Amano se tornaram a forma mais carismática de revisitar a série. Amano adaptou arcos como o jogo original, Chain of Memories, Kingdom Hearts II, 358/2 Days, Birth by Sleep e Kingdom Hearts III. A essência das histórias está ali, mas não se trata de uma transcrição mecânica: o autor comprime eventos, reorganiza cenas e injeta um humor muito mais leve nas relações entre Sora, Donald, Pateta e a Organização XIII.
É justamente essa diferença que torna o material especial. Onde os jogos podem ser dramáticos e herméticos, o mangá frequentemente encontra espaço para fazer Axel agir como o adulto cansado da situação ou para expor o lado mais cotidiano do trio principal. Ele não substitui a experiência dos jogos — especialmente porque alguns detalhes narrativos são condensados —, mas funciona como uma excelente leitura complementar e uma porta de entrada visual para quem quer compreender o tom da franquia.
Também existem as novels de Kingdom Hearts, escritas por Tomoco Kanemaki e ilustradas por Amano. Elas exploram cenas internas e relações entre personagens com uma liberdade que os jogos, limitados pelo ritmo da ação, nem sempre possuem. Para fãs de Roxas, Xion, Aqua, Terra e Ventus, esse material é uma expansão valiosa do lado emocional da série. A continuidade editorial do mangá por Amano, incluindo a adaptação de 358/2 Days, foi confirmada pela Yen Press em seus relançamentos e licenças.
O Que Já Sabemos sobre Kingdom Hearts IV

O novo arco começa em Quadratum, uma cidade de aparência muito mais realista do que os cenários tradicionais da franquia.
O primeiro material de Kingdom Hearts IV mostrou Sora enfrentando um inimigo gigantesco nesse ambiente urbano, além de Donald, Pateta e Strelitzia — personagem introduzida no arco de Union χ[Cross]. A Square Enix batizou essa nova etapa de Arco do Mestre Perdido, o que deixa claro que as sementes plantadas nos jogos mobile e em χ Back Cover serão centrais daqui em diante.
A revelação da D23 2026 trouxe a informação mais concreta até agora: o mundo de Coco, da Pixar, fará parte de Kingdom Hearts IV. O trailer mostrou Miguel e a estética musical da Terra dos Mortos integrados ao visual mais detalhado da nova produção. A janela de lançamento apontada é 2027, com versões anunciadas para PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch 2 e PC.
Mas a expansão não termina no jogo. A Disney também confirmou uma série animada original de Kingdom Hearts, ainda sem título definitivo, para o Disney+. O projeto será desenvolvido em parceria com Tetsuya Nomura e a equipe da Square Enix, contará uma história nova e deverá expandir o universo sem simplesmente adaptar a cronologia dos games.
Para uma franquia que sempre viveu de atravessar mídias, esse próximo passo parece mais natural do que nunca!
- Veja também: Crítica de Camp Rock 3
