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“Mas insistir na ostentação de mágoa é teimosia sacrílega; lamento pouco viril, mostra uma vontade desrespeitosa ao céu“
Hamlet, William Shakespeare
A temporada de premiações sempre coloca em evidência alguns dos projetos mais interessantes lançados ao longo de um ano (tá bom… nem sempre). Prova disso é a 98ª cerimônia do Oscar® que acontece no próximo domingo, 15 de março, e conta com uma competição acirradíssima. Porém, um dos indicados ao prêmio principal de Melhor Filme merece todo o reconhecimento que vem recebendo: o singular “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”.
O longa é dirigido por Chloé Zhao, que recebeu uma estatueta dourada por Melhor Direção em 2021, por “Nomadland”, e estrelado pelos talentosos Jessie Buckley (“Estou Pensando em Acabar com Tudo“, 2020) e Paul Mescal (“Normal People“, 2020). Adaptando um recorte de vida do atemporal poeta William Shakespeare, “Hamnet” se aprofunda em temas como o amor de pais, o luto e o poder de ressignificação da arte, prato cheio para mais um (e, talvez, o mais sensível) Roteiro ao Avesso.
Na história, testemunhamos o início do relacionamento de William (Mescal), um jovem tutor que trabalha com uma família somente para quitar uma dívida de seu pai, e Agnes (Buckley), uma donzela conectada à natureza limitada por sua família reservada. Os anos passam, nascem três filhos, e tudo parece ir bem com uma nova oportunidade de trabalho em Londres para Will, até que uma terrível perda faz com que todos sejam profundamente marcados. Até onde é possível manter o coração sempre aberto?
A crítica sem spoilers você pode conferir aqui.
Bicos de pena e lenços para lágrimas em mãos? Avante!

AMOR(ES)
“Hamnet” é uma história de amor.
E antes de qualquer coisa, é preciso dizer que ele nasce disso. A experiência ao se assistir é de que foi uma obra pensada para ser sentida, em todas as suas formas, seja pela leveza dos movimentos de câmera, ou pela sensibilidade das personagens; pela crueza dos acontecimentos, ou pela verdade das emoções representadas. Não é um filme a que apenas assistimos, mas que deixamo-nos atravessar.
A partir disso, começamos a entender alguns detalhes. Tanto no livro-base de Maggie O’Farrel quanto no filme, a esposa de William se chama Agnes, o que, num primeiro momento, parece não ter muita responsabilidade histórica, já que o nome real da mulher de Shakespeare foi Anne Hathaway (sim… igual ao da atriz). Primeiro, que O’Farrel busca fontes datadas do século XVI, em que alguns documentos trazem a inscrição “Agnes” ao invés de “Anne”. Indo além, pode-se dizer até que os nomes são quase intercambiáveis, da mesma maneira que “Hamnet” e “Hamlet”. Segundo, que a precisão histórica pouco importa. E era aqui que eu pretendia chegar.
O objetivo de Zhao não é contar a história de vida de William Shakespeare, não é tecer uma biografia; muito menos se ater a referências históricas rígidas. O objetivo é dar o centro à Agnes, dessa vez. A mulher por trás de um grande homem. “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” se interessa pelos sentimentos dessa mulher, fosse pelo amado, fosse pela família que construiu ao lado dele.
O objetivo é retratar alguém que não aceita opiniões limitantes e faz o que lhe faz bem: cria seu falcão, anda e sente a vida da floresta apesar dos outros julgarem e a rotularem de “bruxa”, pensa independentemente… dado esse contexto, o nome torna-se apenas um detalhe, pensado com muito cuidado.
O desenvolvimento das personagens é extremamente sensível, ao ponto de nos apaixonamos pelo romance entre Agnes e William. Não existe pressa na relação e os momentos que vemos ao longo do primeiro ato do filme são todos essenciais. Quando as crianças chegam, já estamos tomados pela sensação de que “existe um amor pulsante aqui”, fruto de uma direção paciente e íntima, que mostra os anseios e as fragilidades de cada personagem, fazendo-nos aproximar delas, de um ser humano para outro.

Jacobi Jupe, que interpreta o jovem Hamnet, não perde em nada nas qualidades de atuação e encanta com igual tato para as emoções. Toda a sequência da passagem, quando o pequeno parece estar num vazio por entre a vida e a morte ao tentar salvar a irmã, é a síntese da inocência, do sacrifício e do amor pelos seus.
– Essa é a minha vida. Eu dou ela a você. Dou ela a você, Judith.
Aqui temos a primeira virada de “Hamnet”. A paixão torna-se entrega. A ausência cede lugar à perda; e o amor, enfim, dói.
A FORMA DO LUTO
“Hamnet” é uma história sobre perda.
E para muito além, sobre como diferentes pessoas reagem a ela. Por que enquanto alguns temem a morte, outros esperam-na, ou até, enfrentam-na? Em que momento começamos a ter medo da morte? Não paramos muito para pensar sobre isso, pois o fim costuma assustar. Não conseguimos sequer imaginar como é perder alguém querido, antes de realmente perdermos. O que temos antes disso é apenas um receio, uma angústia.
“Hamnet” retrata o que parece ser a dor maior de uma mãe: perder um filho. Quando Agnes se dá conta de que o pequeno realmente se foi, seu sentimento atravessa a tela e atinge o espectador, dada tamanha visceralidade; dos que ainda sequer são casados, aos que já possuem diversas experiências de vida. A morte traz um impacto que ressoa dentro de nós de uma forma diferente de qualquer outra coisa, tanto que, ao longo do tempo, demos atributos quase físicos a ela – a capa preta com capuz, a foice… E o filme nos obriga a enfrentar esse evento, quase materializado, junto com a personagem de Buckley.
Se por um lado temos uma mãe de coração dilacerado, de outro temos um pai afastado. Não está em julgamento a decisão de William em sair de seu condado e ir para Londres desenvolver suas capacidades como dramaturgo. Na verdade, essa absência serve como um contraponto. Em “Hamnet”, temos diversos lutos acontecendo ao mesmo tempo: o de Agnes, que estava lá, mas não pode interferir; o de Will, que não estava, e não pode dizer “adeus”; o das irmãs, que ainda não compreendem o por quê disso acontecer; e o nosso, que não possui nenhuma ligação pessoal direta com aquela história, com aquela família, com aquela criança, mas que vê tudo, todos, e sente com tudo e todos.

Estar em luto não diz respeito a somente perder alguém. Mas perder vínculos significativos, ter de encarar a imprevisibilidade dos fatos da vida. Não existem fases universais, como se pensa; um ciclo, ou uma linearidade. Assim como a perda reflete de maneira singular em cada um, assim também é a jornada de reconstrução de si. É aprender a conviver apesar do luto a ter que obrigá-lo a diminuir até desaparecer.
ARTE E TRANSFORMAÇÃO
“Hamnet” é uma história sobre a arte.
Parece até metalinguístico, pois é um filme (uma forma de arte) que dedica um tempo considerável para retratar momentos com a literatura e o teatro (que também são arte). Porém, o ponto aqui é outro: a arte como ferramenta de transformação. Na Psicologia, isso é um campo extremamente fértil. É a partir da sensibilidade do criar que comunicamos muitas coisas sobre nós, sendo possível traçar planos terapêuticos envolvendo a utilização da arte (Nise da Silveira está aí para provar).
“Hamnet” parece atestar essa ideia quando vemos William dedicando-se a sua escrita sem saber como reagir frente a perda do filho, perdido nas próprias ideias, no próprio mundo.
– Eu me vejo constantemente pensando onde ele está. Para onde ele foi. O que quer que eu esteja fazendo, onde quer que eu esteja, eu penso: onde ele está, onde ele está? Ele não pode simplesmente ter desaparecido. Ele precisa estar em algum lugar. Tudo o que eu tenho que fazer é encontrá-lo. Eu procuro por ele em todos os lugares, em todas as ruas, em todas as multidões. Estou ficando louco com isso. Mesmo agora, um ano depois.
Sua angústia por “ter chegado tarde demais” o consome. A vida muda rapidamente para um dilema. “Ser ou não ser”. A solução é fazer o que faz de melhor: criar. Fazer arte. E é quando surge “Hamlet – O Príncipe da Dinamarca”. Não como uma célebre obra, estudada até hoje e encenada em centenas de palcos… mas como um pedido de desculpas. Uma despedida que não pôde acontecer.

Tem se debatido como “Hamnet” pode parecer forçar as emoções e o choro em seu espectador. Particularmente, não acredito nesse ponto de vista e não acredito que seja o caso do filme. E mesmo que fosse, qual a importância? Julgar um filme por ter a intenção de fazer-nos chorar é o mesmo que julgar uma pintura por ter intenção de fazer seu observador pensar criticamente. A arte nasce do sentimento; do desejo de ser compreendida e sentida, em algum nível.
Às vezes, não é exagero, ou insistência. É tempo humano. Nossos sentimentos não se resolvem com elipses. Não obedecem a cortes ou atos. Eles permanecem. Insistem. Retornam. O debate, talvez, seja outro: ainda existe espaço para o sentir diante de um filme? Sentir sem mediação, defesa ou racionalização – como quem se permite permanecer na experiência. Quem decide o que é “muito”? Quem mede a profundidade de um afeto?
A crise não é estética; é humana.
E é a ferida onde “Hamnet” toca. Ao fim do filme, quando Agnes estende a mão para o Hamlet do palco, e toda a multidão também o faz, vemos o que é o ser tocado, e se permitir ser tocado, pelo significado. Às vezes, é um discurso; uma cena; uma linha abstrata no tecido do quadro; uma fotografia; um corpo esculpido no mármore; uma frase; um movimento; uma melodia…
A arte, muitas vezes, não pede explicação, porque não foi assim concebida. Ela nasce do sentimento, da experiência. E é o que ressoa em nós quando tudo o que restar for o silêncio.

“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” está disponível para aluguel na Amazon Prime Video
- Veja também: Roteiro ao Avesso – Cisne Negro
