Justiça Artificial é um suspense empolgante sobre tempos em que a IA quase dita as regras.
Que a Inteligência Artificial já faz parte de nossas vidas isso não é novidade: robôs domésticos, chatbots, assistentes virtuais… a tecnologia tem avançado o suficiente para nos oferecer suporte às mais variadas tarefas; em alguns casos, beirando a dependência. Mas como seria se a IA fizesse parte de processos que, atualmente, são estritamente humanos, como, por exemplo, os judiciais?
Essa é a proposta de “Mercy“, ou “Justiça Artificial“, filme de Timur Bekmambetov, e estrelado por Chris Pratt (“Guardiões da Galáxia“, 2014) e Rebecca Ferguson (“Duna“, 2021), num thriller intrigante e que promete testar os limites de ansiedade do seu espectador.
Na trama, acompanhamos o Detetive Chris Raven (Pratt) que acorda diante do Tribunal Mercy, o mesmo que ele ajudou a idealizar, sendo acusado de ter assassinado sua esposa. Diante da imparcial Juíza Maddox (Ferguson), uma inteligência artificial criada especialmente para o sistema, o réu precisará provar inocência antes que seu tempo de 90 minutos se esgote, declarando-o culpado e executando-o. Raven entra, então, em uma corrida contra o tempo, vasculhando arquivos online, colhendo provas e negociando sua liberdade, enquanto põe à prova o próprio conceito de justiça.

Temos aqui uma pressima interessantíssima aplicado a um estilo de narrativa muito própria de Timur Bekmambetov: o chamado screenlife (ou “filme em telas móveis”, numa interpretação quase literal), em que a trama acontece a partir de imagens de chats online ou vídeochamadas em um computador, notebook, celular ou tablet. Excelentes exemplos são “Searching” (2018) e “Profile” (2018). Aqui em “Justiça Artificial“, no entanto, Bekmambetov amplia essas simples telas em janelas flutuantes holográficas, exibindo artifícios para configurar um aspecto hipertecnológico, e dando uma cara mais cinematográfica ao mesclar diferentes formas de filmar.
É promissor o contraste de disponibilizar uma infinidade de arquivos e documentos para que um acusado possa montar a própria defesa antes de sofrer com as consequências de seu crime, valendo-se ainda da possível “imparcialidade” da IA que encabeça esse processo, ao não se deixar influenciar por emoções ou pensamentos/raciocínio típicos humanos que, de alguma forma, poderiam modificar o resultado do julgamento. Isso, porém, é o que também empaca o projeto.
Rebecca Ferguson está excepcional dando camadas para sua personagem Maddox, considerando que esta foi pensada para ser uma representação visual de um robô, que, em teoria, não possui muitas nuances. Já Chris Pratt é competente ao interpretar um detetive duvidoso e com uma ficha repleta de razões genéricas pela qual merece de seus espectadores uma torcida por redenção, mas entregando um arco de desenvolvimento aceitável.

Contudo, a insistência em dizer que, em algum momento, a IA pode ser “tocada” pela sensibilidade humana é cansativa e necessária somente para que o roteiro chegue onde pretende, uma vez que sua virtude estritamente racional e atenta aos fatos vinha sendo constantemente reafirmada até a primeira metade do segundo ato. O máximo tolerável é o surgimento de autonomia nessa tecnologia, uma vez que é um cenário imaginável considerando os rápidos avanços na área. Porém, que essa autonomia pode, conscientemente, ser incentivada e suscitada, a partir de relações humanas, justificando-a com glitchs e “erros no sistema” como é o caso, apresenta-se muito mais como mera conveniência e dissonância do universo do filme.
Apesar da frágil estrutura técnica, “Justiça Artificial” oferece o que o gênero tem de melhor: uma inquietação incansável. É inegável que o filme possui momentos de ação suficientemente bons para deixar qualquer um na ponta da cadeira. A sensação de sufoco causada pelo cronômetro em contagem regressiva, o excesso de pontas soltas no crime, as possibilidades e as conclusões em cascata é eficaz e mantém o interesse de quem assiste.
O desespero pela limitação do espaço virtual presente nos outros projetos citados é substituído aqui em “Mercy” pela impotência do protagonista em vista da magnitude do problema a ser enfrentado no clímax, numa construção de tensão extremamente funcional no último ato, que mesmo sendo empobrecido pelo excesso de reviravoltas (uma delas, até um tanto forçada), é coerente com que o projeto vinha propondo até então.

E vale o ingresso?
Se você busca um filme com boas doses de ação e uma história envolvente com elementos de sci-fi e suspense, “Justiça Artificial” será uma boa surpresa. O projeto cumpre o que promete e entrega o necessário, deixando espaço para pequenas discussões pós-sessão sobre a influência da Inteligência Artificial na vida cotidiana.
Caso você espere algo semelhante a “Buscando“ ou “Host“, “Mercy” pode acabar um tanto quanto destoado, apesar de não ficar atrás quando se fala em estilo visual, tomando escolhas, em alguns momentos, até um pouco mais criativas que os já comentados.
Em ambos os casos, a experiência não deixará de ser imersiva e cativante. Entre códigos, provas digitais e sentenças, o filme escancara que toda justiça artificial carrega, inevitavelmente, uma moral humana… e por isso, às vezes e em algum lugar, ela falha.
Justiça Artificial já está em cartaz nos cinemas.
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"Justiça Artificial" escorrega em convencionalismos e contradições dentro da própria narrativa, mas funciona muito bem como um bom suspense e prende seu espectador na busca por respostas.
