O Clube do Crime das Quintas-Feiras surpreende na diversão, mas exagera no mistério.
Já não é mais surpresa que alguns filmes da atualidade utilizem muito da suspensão de descrença do espectador para criar seu mundo, cenas e reviravoltas. Em troca de acreditar naquilo que nunca seria crível ganhamos boas pitadas de diversão e surpresa, mas essa linha tênue cobra um preço quando exageram na dose e a suspensão de descrença vira a afirmação da crença.
O Clube do Crime das Quintas-Feiras se apresenta como um filme de mistério com leves pitadas de comédia, uma direção diferenciada e atores muito conhecidos. Parece que a Netflix aprendeu muito com Entre Facas e Segredos e vem tentando repetir esse acerto, pena que não funcionou muito com a sequência, nem com Enola Holmes e outros… Enfim. Aqui os atores também são do mais alto nível de fama e qualidade, Helen Mirren, Pierce Brosnan, Ben Kingsley, Tom Ellis, David Tennant são alguns dos nomes que encontraremos aqui. O enredo? Intrigante…
Um clube de idosos que se reúnem para resolver crimes nunca antes solucionados na história e agora se veem em meio a um assassinato misterioso! A direção? Nada mais nada menos que o famosíssimo Chris Columbus, então poderíamos apostar que diversão seria garantida, certo?
Comparar de forma inevitável
Vamos começar do início, “O Clube do Crime das Quintas-Feiras” é uma série de livros de Richard Osman que se baseia no grupo de mistério criado por Agatha Christie, escritora essa cujo estilo de escrita foi usado como inspiração para Entre Facas e Segredos.
A comparação é inevitável, afinal ambas as obras tem premissas muito interessantes, mas a comparação também apresenta a superioridade de uma delas. Em Entre Facas e Segredos o mistério é apresentado tal qual um jogo de tabuleiro, cada peça está na mesa, todos sabem as regras, basta cada um pegar suas primeiras cartas. No filme isso é apresentado quando cada personagem mostra sua visão da história e, assim sendo, as incongruências surgem. Enquanto isso, a nova produção da Netflix apresenta o mistério em meio a um mar de informações. Um assassinato ocorre em um momento crítico na história e, a partir daí teremos o desenrolar com a busca dos motivos e do culpado. O erro? Uma motivação fraca.
A grande verdade é que nada é desenvolvido para que a gente se preocupe minimamente com quem realmente é o assassino, focando muito mais no desenrolar do mistério e nos personagens. Falando neles, os personagens são apresentados e normalmente é de se imaginar que cada um terá uma habilidade única, algo que somente eles seriam capazes de realizar, certo? Bem, não. Talvez suas habilidades especiais sejam unicamente os atores e atrizes que os interpretam. Então se o assassino ou sua motivação não são interessantes e nem os personagens são cativantes, o “jogo de mistério” se desenrola tal qual um jogo de Uno, cada um pega suas cartas e por sorte você pode receber várias cartas 4+ ou simplesmente acabar o jogo com 20 cartas nas mãos.
Mas tudo isso é perceptível nos primeiros 30 minutos de filme, por que então continuar assistindo? A direção do Chris Columbus foi o tiro certo do filme. Atenção, não é algo isento de críticas, mas vai conseguir prender sua atenção. O uso de câmeras somado ao timing cômico e as atuações grandiosas garante ao longa o entretenimento necessário para fazer você assistir até o final.

Facilitando, mas entregando carisma
Como a esperança é a última que morre, quem sabe o desenrolar se torna interessante, não é mesmo? Não, não é mesmo. A maior graça de um mistério não é sua resposta final, mas sim a investigação que leva à resposta. Mas aqui, tudo ocorre de forma quase que automática, as respostas são jogadas no colo dos personagens, existe uma tentativa de relacionar a polícia incluindo diretamente uma agente nova no clube, mas que não resulta em nada.
As novas informações são apresentadas como algo inédito, só para minutos depois todos já estarem sabendo e ser algo completamente inútil. É tipo quando seu amigo diz que tem uma fofoca maravilhosa para te contar, mas na verdade você já sabe e no final a fofoca nem era isso tudo… Alguns personagens que aparentam no início ser importantes são completamente esquecidos ao longo de todo o tempo.
Aqui é quando voltamos a falar da famosa suspensão de descrença. Quando nada no filme parece ser minimamente interessante, qualquer ação é questionada. O filme tem um arco inteiro só para falar de uma pista que eles encontraram, mas eles não parecem conversar em momento algum sobre isso.
No primeiro minuto que nós olhamos para a pista já percebemos quem será um dos suspeitos, mas o filme gasta quase uma hora de investigação para chegar no óbvio. Não é possível que aqueles que se consideram tão bons em investigação pecam em coisas ridículas, afinal de costas, se eu quero ser surpreendido então os personagens tem que fazer algo que eu não pensaria, algo fora da casinha e não algo sem sentido que destrua a casinha.

E Vale a pena Assistir?
O que nos resta então? A resposta final, a resolução do mistério! Normalmente a graça de um plot twist é a surpresa de algo que você nunca imaginava e aqui… realmente eu não imaginava que seria algo tão chato.
O Clube do Crime das Quintas-Feiras ainda tenta em uma ação completamente desesperada engrenar dois mistérios, mas é tão desinteressante e tão mal apresentado que serve simplesmente para a gente se perguntar “ué, por que eles fizeram tudo aquilo então?”
Talvez o filme poderia ter apostado mais na comédia, subvertendo a ideia de personagens inteligentes e criando uma sátira ao gênero de mistério, mas infelizmente não é o que temos.
O Clube do Crime das Quintas-Feiras está disponível na Netflix.
- Veja também: Crítica de Invocação do Mal 4
O Clube do Crime das Quintas-Feiras surpreende na diversão, mas exagera no mistério.
