Meus 84m² é cheio de emoções, repleto de ideias, até demais.
Passar por um processo criativo pode ser complicado. E às vezes o mais difícil não é quando não se tem ideias, é quando você tem ideias demais. E Meus 84m² reflete exatamente isso: Um filme com tantas boas ideias, mas tanta coisa para dizer, que no fim acaba tropeçando nas próprias intenções.
Quando o ambiente cria a história, a história cria a imersão
O filme começa nos apresentando a vida de Woo-seong, interpretado por Kang Ha-neul, ator de Round 6, que sonha em ter sua casa própria e estabilidade financeira em meio a um país que apresenta uma alta instabilidade econômica, gerando assim, instabilidade emocional. Então, nosso protagonista, já no começo da trama, consegue realizar seu sonho. Só que aqui, esse sonho vira um pesadelo muito rápido.
A ambientação é espetacular! O filme apresenta Seul de uma forma melancólica e vazia, sempre com fins de tarde nublado, janelas todas apagadas e ruas vazias. Melancolia essa que acompanha a vida de nosso protagonista, que mesmo com dois empregos e trabalhando o dia inteiro, não consegue respirar dentro da própria casa.
Tudo isso é apresentado em questão de minutos, criando um vínculo, principalmente, com nós brasileiros que conseguimos nos ver na mesma situação.
Quando o barulho vem de dentro
É nesse ambiente abafado, apertado e silencioso que o filme começa a crescer. Woo-seong passa a lidar com problemas que vão muito além do dinheiro. Ele começa a ouvir barulhos vindos do apartamento de cima, enquanto o vizinho de baixo reclama dos barulhos do dele. Barulhos que, ao que tudo indica, nem são causados por ele. E aí o filme entra numa nova camada: o desconforto psicológico.
A relação entre ele e os vizinhos vai ficando cada vez mais tensa, até o ponto em que ele sofre uma ameaça direta de uma das moradoras. E a forma como essa cena é construída é absurda de boa. É tensão pura, sem exagero, sem precisar apelar. O filme trabalha muito bem esse incômodo que não se vê, mas se sente.
E aí você começa a se perguntar: “isso aqui vai virar suspense?” — e a resposta, por um tempo, é sim. Mas só por um tempo.

Quando a solução é absurda, mas você acredita
Em meio a tudo isso, o filme te apresenta mais uma curva: a vida financeira do Woo-seong. E aqui entra uma das partes mais curiosas e empolgantes da história.
Seu amigo surge com um plano completamente fora da realidade: investir em uma ação que vai despencar e depois subir 815% exatamente no dia 15 de agosto, às 8h15 da manhã. Parece piada, mas o roteiro e a direção são tão bem amarrados que você acredita. Você entra no desespero junto com os personagens. Você torce para dar certo.
Essa parte do filme é fantástica. A tensão, o ritmo, a forma como tudo é encadeado. É aquele momento em que você para de piscar e só acompanha. A cena em que ele toma uma droga para tentar se acalmar, o dia em que ele finalmente chega ao momento de vender as ações, o confronto com os vizinhos — são cenas dirigidas com tanta precisão que você sente cada detalhe.
Se o filme acabasse aqui, ele já teria entregado muita coisa boa.
Quando o excesso cobra o preço
Neste momento eu imaginava que, das duas horas que o filme tem, já tinha se passado mais de 1 hora e meia, mas infelizmente, para a minha surpresa havia ainda mais 1 hora de longa.
E é aí que começam os tropeços. O filme começa a insinuar que os barulhos no prédio, que pareciam ser um problema individual, talvez façam parte de uma conspiração maior, envolvendo especulação imobiliária e manipulação de mercado. E esse é o ponto em que a história começa a desandar.
Tudo aquilo que tinha sido tão bem construído, de repente, começa a se perder. A trama vira um emaranhado de reviravoltas, onde os personagens mudam de atitude a cada cena, as relações se embaralham, e a sensação de urgência que existia antes dá lugar a um certo cansaço.
A ansiedade do tipo “meu Deus, o que vai acontecer agora?” vira “meu Deus, o que mais esse filme vai inventar?”.
No fim, sobra potencial e falta direção
O que mais dói em Meus 84m² não é o que ele erra, mas o quanto ele acerta no começo. Ele tem personagens interessantes, ambientação marcante, cenas memoráveis e temas que realmente conversam com quem assiste. Mas parece que ele quis ser três filmes ao mesmo tempo — e nenhum deles foi até o fim.
A sensação é de que várias pessoas escreveram ótimos roteiros separados, e alguém decidiu juntar tudo num só, tal qual uma apresentação do ensino fundamental. E aí o que era para ser um drama psicológico com crítica social, virou um suspense econômico com teoria da conspiração e plot twist a cada cinco minutos.
No final, você até consegue olhar para trás e lembrar de momentos incríveis. Mas também é impossível não sair com aquela sensação de que esse filme podia — e merecia — ser muito mais.

E vale a pena assistir?
Vale. Principalmente pela primeira metade. Porque ela é muito boa. A ambientação é sensacional, a atuação é boa, e o roteiro até certo ponto é afiado. Mas vai com calma. Porque a segunda metade não acompanha.
Meus 84m² é um filme que tem alma, tem criatividade, tem boas ideias, mas também tem excesso. E excesso de boas ideias, quando mal encaixado, pesa.
Se você desligar antes da última meia hora, talvez saia achando que assistiu algo genial. Se for até o fim, talvez saia só com aquela sensação de “poxa, podia ter sido tão melhor”.
Meus 84m² está disponível na Netflix
Meus 84m² é um filme que tem alma, tem criatividade, tem boas ideias, mas também tem excesso.
