O Último Respiro respira emoção, mas afunda nos clichês
É muito bom quando a gente vai assistir algo sem esperar muita coisa, porque aí qualquer surpresa acaba sendo bem-vinda. Pode ser que a gente passe uma hora e meia vendo algo muito bom ou, infelizmente, jogue esse tempo no lixo com algo que não valeu a pena. Felizmente, O Último Respiro não é um desses casos.
Esse é um filme que, se você ver passando pelo catálogo da Netflix ou da Amazon Prime, talvez nem dê muita bola. Parece só mais um filme de mergulho, com tensão, ação, uns climinhas de terror aqui e ali, mas ele entrega momentos bem legais e emoções fortes. Sem dúvida o que te dar play é o elenco de muito peso!
Fale Mais Sobre Isso
Logo de cara, a gente conhece o Chris Lemons, interpretado pelo Finn Cole, que é o personagem principal até o fim do filme. Chris trabalha como mergulhador no fundo do mar, fazendo manutenção de oleodutos, cabos e por aí vai. Desde o início podemos perceber a preocupação de sua esposa (que se não estivesse no filme não mudaria em nada) com os riscos do trabalho.
Um estilo próprio
Uma das primeiras coisas que me chamou atenção no filme foi a forma como ele é gravado, como a direção é feita, a montagem, a trilha sonora. Tudo isso me lembrou muito um documentário da BBC ou da National Geographic. Não é nem por fazer simulações ou entrevistas, mas por causa do estilo, da maneira como mistura passado e presente, das cenas que vão sendo mostradas com muito cuidado. Durante os créditos iniciais, por exemplo, a gente acompanha todo o trajeto do Chris até o local do mergulho, as conversas com os amigos, e o esmero absurdo que o filme tem nos detalhes, principalmente nos pontos relacionados à segurança e normas para com os mergulhadores.
Isso é algo que geralmente a gente até se pergunta quando está vendo esse tipo de filme: “será que esse acidente aí poderia ter sido evitado?” ou “essas pessoas são realmente capacitadas para esse tipo de serviço?”. E o filme já se preocupa em deixar isso claro desde o início — que sim, são profissionais de altíssimo nível, inclusive da marinha, pra esse tipo de missão.
É nesse momento que conhecemos o Duncan, vivido pelo Woody Harrelson, que está muito bem no papel. A princípio ele é aquele cara engraçado, que traz um leve alívio cômico, mas a relação dele com o Chris é muito bacana — quase como de pai e filho, ou mestre e aprendiz. O Duncan é esse veterano que está há muitos anos na empresa e, aos poucos, vai passando o bastão. Funciona bem.
Outro que merece destaque é o Simu Liu, que interpreta o Dave Yuasa. Ele faz um personagem que, em mãos erradas, poderia até ser meio caricato, mas como é o Simu Liu, o cara entrega direitinho. Fica natural, interessante e nunca exagerado.
A melhor parte do filme começa quando eles explicam a missão: uma troca de oleoduto. Eles demonstram bastante tranquilidade com isso e é aí que o filme mais acerta, porque ele mostra com detalhes como é o trabalho dessas pessoas dessas pessoas. E não economiza tempo em mostrar o interior do navio, as etapas de segurança, os equipamentos, os testes. Tudo é mostrado com muito cuidado. Este tipo de detalhe que dá realismo pro filme, sendo esse um ponto muito positivo.
Mas ao mesmo tempo que o filme acerta nisso, ele acaba derrapando em outros pontos. A maior angustia desse longa é quando eles decidem explicar o que está acontecendo ao invés de simplesmente continuar mostrando como antes. Vou resumir isso em uma única coisa chamada de “termos técnicos”, como despressurização, que o filme fala o tempo todo, insiste que é importante, mas nunca explica de fato o que é. E aí você começa a se perguntar: “Tá, mas o que é despressurização? Por que é tão importante?”. Se fosse só citado uma vez, tudo bem. Mas eles falam tanto que parece que vai ter um papel importante na história e nem tem. Isso acaba gerando uma certa confusão e quebra um pouco do ritmo.

Emergindo e afundando ao mesmo tempo
Apesar disso, quando o filme está no fundo do mar, ele entrega seu ápice. A direção debaixo d’água é incrível. O filme consegue te passar direitinho a sensação de estar perdido no meio do nada, o quão pequeno você é frente à imensidão do oceano. A lanterna que não ilumina nem três metros, a ideia de que se o cabo que te liga ao navio romper, acabou. Essa sensação real de desespero, de escuridão total, é muito bem feita!
Só que, como uma boa onda, uma hora ela quebra. E quando o filme precisa lidar com os problemas que acontecem fora da água, as coisas começam a desandar. A impressão que dá é que ele gastou tanto tempo mostrando o funcionamento da operação, os equipamentos, os mergulhadores, que quando algo dá errado no navio, eles simplesmente não sabem explicar o porquê. Do nada, o navio para. E é isso. Acabou. Ninguém sabe o motivo. Sendo um navio moderno, cheio de tecnologia, sonar, tudo do mais avançado possível, é difícil de acreditar que o problema simplesmente aconteceu “porque sim”.
E aí entra o clichê: o personagem “TI”, que vai até uma sala cheia de computadores, liga dois cabinhos e resolve tudo. Um filme que estava sendo tão realista até então, e de repente vira quase Missão Impossível. Isso dá uma sensação de que a parte de cima da água foi meio esquecida, sabe? Tem personagens importantes ali, como o capitão, o operador de câmeras, gente que tinha responsabilidade sobre os mergulhadores, e todo mundo acaba sendo meio deixado de lado. O próprio capitão, por exemplo, é um dos personagens mais inúteis do filme.
Fica difícil de acreditar que uma operação com gente tão capacitada e treinada vá se desenrolar de forma tão aleatória. Dá pra ver que o filme tentou, e claramente conseguiu, encontrar soluções fáceis só para poder focar no drama do Chris lá embaixo.
Falar mais que isso seria dar spoiler, mas dá pra imaginar o que acontece. Ainda assim, o filme continua sendo bom. Embaixo d’água, com os outros mergulhadores, temos cenas muito impactantes, conhecemos mais do passado de cada um, e a relação entre eles é mais desenvolvida. O desfecho da operação é interessante e o filme, no fim das contas, é muito bem feito.

E vale a pena assistir?
Uma das melhores qualidades de O Último Respiro é que ele é curto! O filme sabe usar bem o tempo que tem — apresenta os personagens, cria os problemas, desenvolve as relações e entrega uma conclusão satisfatória.
Mesmo com os defeitos nas cenas dentro do navio, ele consegue deixar a experiência toda muito interessante. Você talvez não vá sair do filme amando algum personagem, nem chorando de emoção, mas com certeza vai terminar sentindo que assistiu algo bom, com uma ótima direção, com cenas fortes e que valem o tempo investido.
- Veja também: Crítica de Brick da Netflix
Você talvez não vá sair de O Último Respiro amando algum personagem, nem chorando de emoção, mas com certeza vai terminar sentindo que assistiu algo bom, com uma ótima direção, com cenas fortes e que valem o tempo investido!
