Pssica chega como uma das produções nacionais mais diferenciadas de 2025.
Não é só pela dureza do tema, mas também pela ousadia de jogar luz sobre uma região do Brasil que quase nunca ganha destaque nas telas, e de um jeito cru, sem maquiagem.
Baseada no livro de Edyr Augusto, a minissérie de quatro episódios, criada por Bráulio Mantovani, Fernando Garrido e Stephanie Degreas, com produção de Andrea Barata Ribeiro e Fernando Meirelles, não faz concessões. Ela mergulha de cabeça nos conflitos humanos, no horror social, no misticismo e nesse lugar tenso onde fé e crime acabam se confundindo.
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A história acompanha três personagens que acabam tendo seus destinos entrelaçados nas margens dos rios paraenses. Janalice (Domithila Cattete) é uma jovem cuja vida vira de cabeça para baixo depois que um vídeo íntimo dela vaza. A partir daí, as pressões familiares e sociais a empurram para dentro do tráfico humano, num caminho brutal e sem volta. Preá (Wallas Silva), sucessor da liderança de uma gangue fluvial, acaba se apaixonando por ela de um jeito meio fora da realidade, quase infantil. Já Mariangel (Marleyda Soto) talvez seja, na minha visão, a personagem mais forte: uma mulher que já carrega várias cicatrizes emocionais e que precisa enfrentar a pior tragédia da sua vida.

Narrativamente densa
O que mais me chamou atenção em Pssica foi o jeito como a série mostra a região Norte. Não é só aquela visão turística das paisagens naturais, mesmo que isso também apareça. Os rios aqui são como veias pulsando uma realidade doentia e violenta. A ambientação não é enfeite: ela pesa, ameaça, guia o destino dos personagens. Dá pra sentir que o espaço é quase um personagem, e isso aumenta muito o impacto da trama.
Narrativamente, é uma série densa. Não dá trégua. Logo nos primeiros episódios aparecem violência sexual, tráfico humano, dilemas morais, choque entre crenças locais e exploração brutal. Não é nada gratuito, mas também não é fácil de assistir. Em alguns momentos, eu me senti realmente desconfortável — e acho que essa era a intenção. Não é que nunca tenhamos visto esse tipo de violência retratada em outras obras, mas aqui o contexto amazônico deixa tudo mais pesado, mais real.
O título da série também é significativo. “Pssica”, como maldição, funciona como uma metáfora poderosa. Uma pessoa passar por tantas tragédias de forma seguida só pode estar amaldiçoada, não é? Esse elemento místico funciona não só como crença cultural, mas como reflexo de uma sensação coletiva: culpa, medo, impotência diante de forças maiores — sejam elas espirituais ou sociais.

Erros e acertos
As atuações são um dos grandes trunfos. Domithila Cattete entrega uma Janalice que vai da ingenuidade à completa desilusão de um jeito bem convincente. Já Marleyda Soto como Mariangel é simplesmente visceral: dá pra sentir o peso da dor dela, o luto atravessado por crença e memória. O resto do elenco não chega a brilhar tanto, mas cumpre bem seus papéis.
Mas claro que a série não é perfeita. Eu senti problemas técnicos em várias cenas de ação. Algumas foram mal filmadas, principalmente as sequências no rio com jet skis, que tinham tudo para ser épicas, mas acabaram confusas. Além disso, em certas partes ficou bem claro que houve dublagem, e isso tira um pouco da imersão. Parecia meio improvisado, sabe?
Outra questão que me incomodou foi o pouco aprofundamento de alguns personagens. Às vezes dava pra sentir que o roteiro sacrificava camadas emocionais para acelerar a trama. Também achei que alguns contrastes entre mito e realidade soaram meio forçados em certos momentos. E tem o ritmo: talvez se houvesse mais respiro entre as cenas de maior impacto, o público não terminaria cada episódio tão emocionalmente exausto.

E vale a pena assistir?
Mesmo assim, Pssica é uma série que merece ser vista. Ela incomoda, mas justamente por isso é necessária. Mostra um Norte muito além do cartão-postal, um retrato cru de como crime, fé e dor se misturam na vida de quem vive à margem.
É uma produção corajosa, com atuações intensas, ambientação que se impõe e uma narrativa que mistura realismo brutal com misticismo. Talvez não seja uma série para todo mundo — mas para quem topar encarar esse mergulho, o impacto é garantido.
Pssica está disponível na Netflix
- Veja também: Crítica de A Longa Marcha
Pssica é uma série que merece ser vista. Ela incomoda, mas justamente por isso é necessária. Mostra um Norte muito além do cartão-postal, um retrato cru de como crime, fé e dor se misturam na vida de quem vive à margem.
