Mentirosos nos instiga pelo mistério, mas não empolga na mesma medida
Preciso confessar que passei a série inteira remoendo na minha cabeça que tudo o que eu estava vendo era só problema de rico. Todas as problematizações sobre como aquelas pessoas não se importam com nada e ninguém além deles mesmos pareciam básicas demais. No entanto, tinha algo que me motivava, apesar de tudo: o mistério do que teria, de fato, acontecido com a protagonista. E é só nos últimos minutos do último episódio, quando finalmente é revelado o que aconteceu, que a série realmente entrega. O desfecho não só surpreende como faz a gente revisitar tudo o que assistiu e perceber que a dinâmica daquela família era pior do que apenas “problema de gente rica”.
Fale Mais Sobre Isso
‘Mentirosos’ adapta o romance adolescente de E. Lockhart, centrado em Cadence Sinclair (Emily Alyn Lind) e um segredo familiar devastador que envolve seus primos Johnny, Mirren, Gat e um misterioso acidente que deixa Cadence sem memória. Desenvolvida por Julie Plec e Carina Adly MacKenzie (conhecidas por The Vampire Diaries), com participação da própria Lockhart como produtora executiva, a expectativa era combinar intriga psicológica e drama familiar de gente rica.
Interessante até certo ponto
À primeira vista, o cenário é deslumbrante. A ilha de Beechwood impressiona, e a série aproveita muito disso: praias lindas, mansões de verão, pores do sol perfeitos e aquela aura de férias infinitas. E isso não é exagero. Tudo é limpo, claro, bonito demais. A estética é pensada, elegante, até hipnotizante.
Mas logo percebe-se que essa beleza toda estava cobrindo o que faltava de profundidade. Os personagens estão lá, andando por cenários lindíssimos, falando sobre coisas sérias, mas quase sempre de forma superficial. Eu esperava tensão, drama, talvez um pouco de crítica social. Mas a maior parte dos episódios parece mais preocupada em manter o ar misterioso do que realmente dizer alguma coisa com peso.
Não que não existam elementos subentendidos, mas sinto que a série se perde muito quando tenta fazer com que o único interessante seja o mistério envolvendo a perda de memória da protagonista. Quando, na verdade, o que é mais intrigante são as relações interpessoais dos Sinclair.
Cadence é uma adolescente que sofreu um acidente e perdeu a memória. Ela retorna para a ilha dois anos depois com o objetivo de se lembrar do que aconteceu. Ao redor dela estão os outros “Liars” — Johnny, Mirren e Gat — seus primos (e, no caso de Gat, sua grande paixão adolescente). A relação entre eles é o núcleo da série, mas pra mim faltou carisma, faltou principalmente química. Eles estão lá, dizem que se amam, mas realmente não parece que amam de fato.
Cadence passa boa parte dos episódios andando sozinha, narrando seus pensamentos ou interagindo com os outros de forma meio distante.
A série até tenta mostrar que ela está emocionalmente instável, confusa, traumatizada. Mas a forma como isso é feito — com muitos closes, trilha melancólica e diálogos poéticos — me deixou mais impaciente do que envolvido. Era como se tudo estivesse o tempo todo tentando me dizer “isso é profundo”, sem realmente ser. Nota de repúdio para as histórias de contos de fadas que a Cadence conta ao público para ilustrar o que está acontecendo. Sério, chato demais.

O impacto vem, mas sem a força esperada
Apesar de tudo isso, o final é realmente surpreendente. Não só pela descoberta inesperada, mas principalmente porque é nesse momento que a série faz você resgatar tudo que assistiu até então. A dinâmica familiar, forçada principalmente pelo patriarca, exaltava a competitividade entre as mães e, consequentemente, entre os filhos. E isso acabava fazendo com que todos se enxergassem como inimigos, mesmo sendo da mesma família. No fim, isso leva cada um deles a tomar atitudes erradas — e aí a tragédia deixa de ser apenas um evento acidental e passa a ter raízes emocionais muito mais profundas.
Só que, mesmo assim, o impacto que deveria acontecer… não vem com a força que poderia. E acho que isso tem a ver com o fato de que, até aquele ponto, eu não estava verdadeiramente conectado com os personagens. Eu entendia o que eles estavam passando, mas não sentia junto com eles. E quando o final depende tanto de você se importar com quem está sofrendo, essa distância emocional pesa.
O ritmo da série também é irregular. Fica aquela sensação de que a história está sendo esticada apenas para manter o clima “poético e misterioso”. Os momentos mais impactantes ficam todos concentrados no final. E quando isso acontece, a jornada até lá acaba sendo completamente arrastada.
A série tenta tocar em temas relevantes: trauma, culpa, relações familiares tóxicas, privilégio, racismo sutil. Tem momentos que dão indícios de que ela quer dizer algo importante sobre esses assuntos — principalmente nas interações entre Gat (o único personagem não branco) e a família branca, rica de Cadence. Mas quase tudo fica na superfície. São temas fortes, mas tratados com muito cuidado, como se a série tivesse medo de incomodar.

E Vale a pena Assistir?
Mentirosos é uma adaptação um tanto acima da média para produções semelhantes, mas ainda precisa de mais força para ser memorável. Se você curte séries que entregam mais na atmosfera do que na profundidade, talvez Mentirosos valha a tentativa.
Mas se você está em busca de algo que te envolva emocionalmente, que te faça refletir e se importar com os personagens desde o início, talvez ela fique devendo.
Mentirosos está disponível no Prime Video
- Veja também: Crítica de Olympo da Netflix
Mentirosos é uma adaptação um tanto acima da média para produções semelhantes, mas ainda precisa de mais força para ser memorável. Se você curte séries que entregam mais na atmosfera do que na profundidade, talvez Mentirosos valha a tentativa. Mas se você está em busca de algo que te envolva emocionalmente, que te faça refletir e se importar com os personagens desde o início, talvez ela fique devendo.
