Diamantes Roubados: O Golpe do Século retrata um ato grandioso, mas com uma narrativa sem brilho
Filmes de Heist, os famosos filmes de roubo, são um gênero à parte dentro dos filmes de ação e suspense, cada um inovando nos planos e em sua execução, mas respeitando clichês muito bem pré-definidos que são de extrema importância para o bom funcionamento do filme. A saga 11 Homens e um Segredo calha com um exemplo perfeito.
Mas o que Diamantes Roubados tem de diferente de 11 Homens e um Segredo? Além da falta de atores como Brad Pitt e George Clooney, ‘Diamantes Roubados: O Golpe do Século’ tenta inovar em tudo o que é possível, usando os clichês de forma mínima para somente classificar o longa no gênero de “roubo”.
Os clichês dos filmes de roubo
Dentre os vários clichês muito bem executados na saga protagonizada por George Clooney, temos os personagens estereotipados onde cada um terá sua função para a execução do plano, um líder que fala pouco e nunca comenta o plano completo, um antagonista que pode ser ou um policial ou o próprio dono dos itens roubados, cenas de comédia em meio à tensão, algo que aparenta ter dado errado mas já estava previsto, e vários outros elementos que fazem esse tipo de filme funcionar.
Mas também já vimos o contrário: Quando a tentativa de extrapolar demais quebra a suspensão de descrença e gera estranheza em vez de surpresa. A grande contradição dos heist movies é que o que mais esperamos é o plot twist final, mas muitas vezes o melhor está mesmo é na construção. As relações entre os personagens, a especialidade de cada estereótipo e o andamento do plano. Pena que já nos primeiros minutos somos surpreendidos com uma estrutura confusa no lugar de algo bem estipulado.
Tudo começa no início!
Já nos primeiros minutos, quando a obra nos confunde (sem intenção alguma) se estamos assistindo algo fictício ou real, se é um documentário ou um filme, é que vemos que o plano não é foi dos melhores.
A estrutura do longa é, no mínimo, diferente. Nos últimos anos, a forma como um documentário é montado tem mudado bastante, principalmente nos streamings. Diamantes Roubados é a prova de como isso pode ser interessante, mas lembrando que a diferença do louco para o gênio é simplesmente o acerto ou a falha no resultado.
Enquanto em um filme o clímax do roubo ficaria para o final, em um documentário o resultado já aparece na introdução, e o interesse é mantido com dúvidas e detalhes da execução. Aqui, alguém parece ter perguntado: “será que dá para fazer os dois?”. A resposta foi: sim, dá. E é exatamente isso que tentaram.

Dois núcleos, duas abordagens
O longa utiliza dois núcleos narrativos:
- O primeiro, com os policiais envolvidos no caso, seguindo a fórmula clássica de documentário para ambientar e explicar como foi feita a investigação.
- O segundo, com Leonardo Notarbartolo, acusado de ser o líder da quadrilha. Aqui é onde o roteiro tenta se aproximar do cinema: os estereótipos aparecem, mas só por alguns minutos; a execução do plano, que em um filme seria o ápice, é diluída em etapas ao longo de 1h30, e assim o clímax nunca chega de verdade.
O resultado é um ciclo repetitivo: mostra-se uma parte do sistema de segurança, ladrões burlam o sistema, polícia cria hipótese, polícia erra, Leonardo explica como realmente foi feito, próxima parte do sistema. E isso se repete até a exaustão.
A vida real nem sempre é criativa
Ao imaginar um longa que retrata um roubo, ainda mais o maior roubo da história, ou melhor, o maior roubo de diamantes da vida real, imaginamos que o plano orquestrado, por mais que simples em algumas etapas, fosse inovador, instigante e minimamente curioso, mas infelizmente a vida as vezes parece não ser tão criativa quanto a ficção. As ações tomadas pela gangue fazem a gente questionar se isso realmente daria certo com policiais de verdade, mas como estamos sim falando da vida real, então nos questionamos da própria policia envolvida…
Já que o roteiro não é dos melhores e as participações se resumem praticamente a 2 policiais e um membro da gangue, nos resta abordar a direção.
Direção: boas ideias nem sempre significa boa execução!
Com cortes interessantes e um bom uso de cenas que (parecem) ter sido gravadas na época do roubo, em 2003, fica perceptível que a criatividade que faltou no roteiro foi usada para a direção.
Algumas cenas são recriadas com os próprios policiais e com o Leonardo, algo que genuinamente não me agrada, pois parece mais uma cena de filme, que incrivelmente são as melhores cenas gravadas, mas infelizmente para um documentário. Pena que o que resta de interessante dura só até metade do longa.
O problema do tempo
Sempre comento aqui sobre como é muito importante saber usar o tempo certo de uma obra, mas aqui estamos falando de 90 minutos, então se não é possível diminuir o tempo podemos aumentar o conteúdo! Como? Simples, trazendo por exemplo contextos históricos, citações de outros roubos similares, técnicas de segurança e de roubos usadas em outros casos, participações especiais ou entrevistas com outros profissionais do ramo.
Não sendo este o resultado, o que poderia ter sido feito? Diamantes Roubados: O Golpe do Século seria um excelente documentário de curta-metragem, focando mais primeiro na investigação e depois nos comentários de Leonardo sobre o roubo. Lembra que comentei que a direção consegue segurar o longa até sua metade? Pois é justamente nesse momento que o suposto ápice se torna o declínio.
O momento que todos já sabiam que aconteceria, a prisão de Leonardo e a forma como a polícia o encontrou, conseguem ser o momento mais desinteressante de toda a obra, tanto pela direção, quanto roteiro, quanto pelo próprio motivo de como tudo ocorreu na vida real. Mas se os mais incríveis documentários, filmes e peças de teatro conseguem transformar algo comum em esplêndido, então o mesmo se esperava desta obra. Infelizmente o que temos é um terceiro ato sem emoção e com apensa 2 rápidos minutos de um plot twist interessante em meio a investigação, que poderia ter sido bem melhor tratado com uma análise melhor do roteiro.

E vale a pena assistir?
Diamantes Roubados: O Golpe do Século tem uma ideia interessante, mas que não se sustenta. Não estará nem na sua lista de 20 melhores documentários, mas também não estará nos 20 piores.
Se você for realmente fã de obras sobre roubos ou gostar muito de documentários investigativos, pode ser que você acha alguma graça.
Diamantes Roubados: O Golpe do Século está disponível na Netflix!
Diamantes Roubados: O Golpe do Século tem uma ideia interessante, mas que não se sustenta. Não estará nem na sua lista de 20 melhores documentários, mas também não estará nos 20 piores.
