A Noite Sempre Chega mira nas estrelas, mas voa baixo.
Qual foi a última vez que você se interessou em um filme pela sinopse? Ou melhor, qual a última vez que você leu uma sinopse? Há uma década atrás comentaríamos uma semana inteira sobre um trailer que vimos na televisão entre vários programas de auditórios.
Mas hoje, com grande volume de obras dos mais diferentes tipos e a constante produção de conteúdo em massa em redes sociais para aproveitar de qualquer vestígio de hype, saber de qualquer notícia referente a um novo filme se torna algo inevitável. Sendo assim, os trailers conseguem cumprir muito bem seu objetivo que, além de anunciar a chegada da obra, também cria interesse pelo público. O problema maior é a criação de uma expectativa por algo incerto, ou pior ainda, quando a expectativa supera a realidade.
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A Noite Sempre Chega tem uma premissa muitíssimo interessante: “Prestes a perder sua casa em uma cidade cada vez mais inacessível, uma mulher passa uma noite inteira atrás de 25 mil dólares para evitar o despejo”. Quem não se interessaria? Mas vale ressaltar que, se considerarmos fator surpresa e a expectativa criada por base em trailers como fator primordial para nossa percepção de uma obra, por si só não é o suficiente para um bom recebimento do público ou até mesmo da crítica.
Dada a devida introdução, vamos ao filme!
Início cativante, desenvolvimento esquecível…
O filme tem um início esplêndido, pavimentando nossa percepção sobre não só o micromundo que nossos personagens estão, mas também a situação que eles se encontram. Com desemprego, dívidas e despejo se tornando cada dia mais comuns, a protagonista Lynette, interpretada muitíssimo bem pela Vanessa Kirby, se vê em uma situação de extrema urgência. Com dinheiro contado para quitar suas dívidas, tudo vai por água a baixo devido a sua péssima relação com sua mãe.
Em meio a tudo isso, nos é apresentado o dia-a-dia de Lynette enquanto trabalhadora, estudante e responsável por sua família. A relação de Lynette com as pessoas ao seu redor é muito bem retratada, sempre com pressa, sempre tentando resolver algo, sempre atrasada, com desespero eminente para tentar dar conta de tudo.
A direção é muito feliz em acompanhar essa correria, focando muito em mostrar a expressão de Lynette frente aos seus chefes, professores, familiares e colegas de trabalho, ao mesmo tempo que mostra a desaprovação dos mesmos enquanto a protagonista precisa sair mais cedo de um compromisso para chegar menos atrasada em outro. O uso do tempo, ao menos nesse início de filme, é muito inteligente, abusando de um ritmo acelerado e cenas curtas para te imergir na pressa que esse mundo gera na personagem principal.
Mas por que focar tanto nesse início? Porque é a única parte que entrega o que a sinopse e o trailer nos sugerem, ainda digo que é o que o filme deveria ter seguido ao longo de suas quase duas horas.

…e um final sem sentido!
Dada a ambientação de mundo, apresentação de personagens e questões a serem enfrentadas em 30 minutos, o que temos no grande restante do filme? A busca da solução. Lynette então vai em busca do dinheiro que falta e é aqui que o filme dá uma virada em 180 graus e assume um caminho bem diferente. A partir daqui, vamos conhecer uma protagonista diferente da que imaginávamos. Percebemos que o desespero na busca por dinheiro não é recente e que a tomada de ações drásticas não é algo novo.
Lynette já havia caminhado para a prostituição e o filme de forma muito inteligente não mostra quando isso começou ou se essa atitude se deu única e exclusivamente devido à falta de dinheiro, então vemos Lynette de maneira quase inocente recorrer a “amigos e clientes” para pegar dinheiro emprestado e quando a óbvia resposta negativa é recebida, o silêncio de já se ter tentado tudo toma a tela e a mente da protagonista. Se o filme já tinha dado uma virada de 180 graus mostrando um pouco mais do passado da protagonista, aqui completamos os 360 graus.
Daqui para frente o filme cria uma escada, a cada degrau que Lynette desce, um novo encontro é apresentado, um novo personagem aparece como uma solução para o problema e, no final do arco, um novo problema surge. A cada degrau uma nova atitude é tomada, no início aparentemente de forma desesperada, mas ao final de forma quase que necessária.
O que me incomoda não é a forma como a história foi pensada, mas sim como a história foi montada. Como comentei, temos uma escada onde cada degrau apresenta um novo problema, um novo personagem e uma nova solução. O erro se mostra quando o filme esquece completamente os personagens mostrados nos problemas e soluções anteriores e quando a solução se mostra falha, deixando a impressão de que todo o percalço passado foi inútil.
A protagonista passa por uma série de problemas para algo que simplesmente não dá certo ao final e tudo o que ela passou não serviu para nada, simplesmente para mostrar até onde ela é capaz de ir. Lembra quando eu disse que o uso do tempo no início é muito bom? Aqui o tempo é usado de uma forma direta, mostrando na tela quanto falta para o fim do prazo que Lynette tem para conseguir dinheiro, mas isso é completamente inútil em todo o filme de uma forma que ele não consegue mais criar o senso de urgência, sendo completamente divergente do desespero mostrado.
O sentimento de urgência se vai pois o próprio filme deixa claro que alguma coisa vai calhar perfeitamente para a protagonista descer o próximo degrau, sem sequer se importar com o que tivera acontecido na história a poucos minutos atrás. O filme que caminhava para o clássico À Procura da Felicidade começa a se aproximar cada vez mais de Uma Noite de Crime.
Ainda assim, vale ressaltar que as atuações são muito boas e a direção é envolvente, é sim muito interessante ver cada vez mais do passado de Lynette. Mas se o filme cria uma expectativa e o resultado não supera ou não surpreende essa expectativa, então ao final o que ficamos é com um gosto amargo na boca do que esse filme poderia ter sido.
Como se não bastasse, temos um final completamente “inútil”. Lynette chega ao último degrau e literalmente tudo o que ela passou antes fora completamente desnecessário. Durante quase duas horas vimos ela correr atrás de algo, quando o real problema já tinha se apresentado desde o início, o motivo literal e filosófico de todo esses desespero existir: sua família problemática. O problema do dinheiro foi resolvido, mas o da família não, tornando tudo mais atoa ainda.

E vale a pena assistir?
Ao final, tudo o que A Noite Sempre Chega faz, ele faz muito bem, mas a melhor parte do filme é quando ele segue o que tinha proposto, justamente o início.
Mesmo que quase tudo na produção seja bom, o que ele se propõe como premissa é muito melhor. É quase como ir no seu restaurante favorito, mas não ter os melhores pratos.
A Noite Sempre Chega está disponível na Netflix
- Veja também: Crítica de Faça Ela Voltar
Ao final, tudo o que A Noite Sempre Chega faz, ele faz muito bem, mas a melhor parte do filme é quando ele segue o que tinha proposto, justamente o início.
